Valfrido Silva*
Um bom exemplo do tiro que sai pela culatra. O candidato Flávio Nantes Bolsonaro encontrou um jeito de aparecer mesmo quando não tinha a palavra: instalar-se atrás do presidente Lula e oferecer às câmeras um repertório de caretas, negativas e movimentos que dispensavam microfone. A cena atravessou o debate da Band e continuou circulando depois que os candidatos deixaram o estúdio. Na disputa pelo melhor recorte da noite, Nantes ganhou um personagem adicional: a sombra. Agora, podem chamar os Nostradamus da política. Há uma eleição apertada pela frente e uma coreografia inteira à disposição dos intérpretes.
O desempenho teve preparação. Conforme reportagens sobre os bastidores, Nantes treinou com o marqueteiro Duda Lima e aliados as aparições atrás de Lula para produzir vídeos destinados às redes sociais. A intenção era disputar a atenção durante as falas do adversário. O candidato estudou onde entrar, como reagir e de que maneira permanecer na imagem. Acontece que o público também participa da montagem. E nem sempre aceita representar o papel que lhe foi reservado no ensaio.
Uma campanha pode preparar o gesto, escolher o enquadramento e distribuir o vídeo. O significado que ele adquire depois depende de quem assiste. A expressão concebida para transmitir segurança pode parecer deboche. A movimentação destinada a demonstrar domínio pode ser recebida como inconveniência. O esforço para ocupar a cena pode deixar visível justamente a dificuldade de esperar a própria vez. Nesse ponto, o marqueteiro já perdeu o controle remoto: a imagem entrou nas casas e cada eleitor começou a fazer sua edição.
É aí que a sombra oferece uma leitura interessante. Enquanto Lula falava em primeiro plano, Nantes procurava existir também naquele espaço, reagindo ao presidente. A candidatura apresentada como alternativa acabava, por alguns instantes, organizando seus movimentos em torno do adversário. Eis a ironia da semiótica: quem pretende suceder precisa convencer de que tem caminho próprio, mas escolheu passar parte da noite seguindo os passos de quem deseja substituir. Como imagem de campanha, é um material sugestivo. Como previsão eleitoral, ainda não autoriza ninguém a mandar bordar a faixa.
Os adivinhos certamente encontrarão sinais para os dois lados. Haverá quem veja um desafiante desinibido, capaz de enfrentar um presidente experiente. Outros enxergarão um candidato que transformou a oportunidade de apresentar suas ideias em exercício de perturbação. Nas respectivas torcidas, os laudos já devem estar prontos, assinados e reconhecidos em cartório. Falta ouvir quem não foi ao debate para confirmar uma certeza anterior — e que pode ter desligado a televisão antes de os especialistas terminarem de explicar a vitória de seu cliente.
As pesquisas continuam úteis para retratar a disputa dentro de seus métodos e limites. Não conseguem, porém, traduzir automaticamente uma careta em voto nem determinar quantos eleitores mudaram de ideia por causa de um vídeo. Tampouco o volume de compartilhamentos resolve a conta. Uma cena pode circular porque agradou, porque irritou ou porque virou motivo de riso. O mesmo recorte serve ao admirador e ao adversário, cada qual acrescentando a legenda que melhor lhe convém. O algoritmo agradece a ambos.
A cinco dias da votação, até os cavalos daquela chegada imaginária à rampa do Planalto merecem descanso. O olho mágico pode separar focinhos; não lê pensamento de eleitor. E os Nostradamus de plantão fariam bem em preservar algum espaço no almanaque para o imprevisto.
Nantes ainda terá de mostrar o que existe além da coreografia, assim como Lula precisa explicar o que pretende fazer além de defender o próprio passado. O brasileiro escolherá entre os dois, com suas propostas, trajetórias e responsabilidades. Quanto à sombra, já cumpriu seu papel: lembrou que aparecer atrás de um presidente é bem mais fácil do que convencer o país a colocá-lo à frente.
(*) jornalista e editor do contrapontoMS, em colaboração humano–IA, sob revisão e edição final do autor.
