O Datafolha resolveu embaralhar as cartas justamente quando Lula e Flávio Nantes se preparavam para sentar à mesa do último debate presidencial, nesta sexta-feira, na TV Globo. Na pesquisa divulgada na noite desta quinta-feira, o instituto distribuiu as fichas com uma precisão que faria inveja ao mais rigoroso dos crupiês: 50% dos votos válidos para cada candidato. Nem uma ficha a mais, nem uma a menos. A dois dias da eleição, o Brasil chega à reta de chegada sem que os números permitam apontar quem cruzará primeiro a linha. E o eleitor, que já vinha assistindo a uma campanha transformada em sucessão de acusações, promessas e golpes abaixo da cintura, recebe agora a notícia de que os dois adversários estão rigorosamente empatados na fotografia estatística. É bom lembrar, antes que algum cabo eleitoral se empolgue, que fotografia não é filme e pesquisa não é urna.
A trajetória das três últimas rodadas do Datafolha ajuda a compreender o tamanho do aperto. Na primeira, Nantes aparecia com 52% dos votos válidos, contra 48% de Lula. Na seguinte, a diferença caiu para 51% a 49%. Agora, 50% a 50%. A sequência sugere aproximação nas estimativas, mas não autoriza ninguém a proclamar uma virada consumada, muito menos a anunciar o vencedor de domingo. Todas essas diferenças estão sujeitas à margem de erro de dois pontos percentuais. Nos votos totais, que incluem brancos, nulos e indecisos, Nantes registra 47%, Lula 46%, enquanto 5% dizem que não votarão em nenhum dos dois e 2% ainda não sabem o que fazer. É uma dessas situações em que o decimal ausente faz mais barulho do que muitos discursos de palanque. E em que a prudência, artigo cada vez mais raro no comércio político, deveria valer mais do que a gritaria.
Há outro dado que merece atenção especial. Segundo o levantamento, 94% dos entrevistados afirmam estar decididos sobre o voto, enquanto 6% admitem a possibilidade de mudar de opinião. Não significa que esses 6% estejam esperando o debate da Globo para escolher um candidato, nem que todos comparecerão às urnas ou necessariamente mudarão de lado. Significa apenas que existe uma parcela declaradamente menos firme num eleitorado que, em sua imensa maioria, já tomou posição. O problema para Lula e Nantes é que nenhum deles dispõe de uma receita infalível para alcançar essa gente. O presidente tentará apresentar as realizações de seu governo e convencer o eleitor de que merece continuar. O senador procurará defender suas propostas e sustentar a alternativa representada por sua candidatura. Ambos terão, porém, de enfrentar a mesma dificuldade: falar a um país dividido sem se limitar a agradar a metade que já está convencida.
A coincidência com o debate desta sexta-feira não poderia ser mais apropriada. Ainda hoje, recorremos à memória do saudoso Roberto Razuk, jogador de pôquer dos bons, para comparar o encontro da Globo a uma partida em que os adversários tentam descobrir quem tem a melhor mão. Mal a crônica saiu do forno, o Datafolha apareceu para informar que, pelo menos na contagem das fichas, ninguém está em vantagem numérica entre os votos válidos. Razuk, que conhecia como poucos a diferença entre uma boa carta e um blefe bem executado, certamente encontraria alguma graça nessa distribuição. Mas há uma distinção essencial entre o cassino e a política. No pôquer, esconder o jogo faz parte das regras. Numa disputa pela Presidência da República, o eleitor tem o direito de exigir que os candidatos mostrem o que pretendem fazer com o país, de onde virá o dinheiro para suas promessas e quais compromissos estão dispostos a assumir depois que as câmeras forem desligadas.
É justamente aí que o último debate pode oferecer alguma utilidade pública, independentemente de seu efeito sobre as intenções de voto. Até agora, boa parte da campanha foi consumida pela tentativa de transformar o adversário na pior ameaça possível, como se o Brasil pudesse ser governado apenas com a rejeição ao outro. O levantamento do Datafolha também registra índices elevados de rejeição aos dois candidatos, um lembrete de que conquistar votos não é necessariamente conquistar confiança. Enquanto os comandos das campanhas estudam cada gesto, cada frase de efeito e cada trecho capaz de viralizar nas redes sociais, continuam à espera de respostas questões muito menos fotogênicas: o equilíbrio das contas públicas, a saúde, a educação, a segurança, a infraestrutura e o funcionamento das instituições. São assuntos que não cabem facilmente num corte de quinze segundos, mas continuarão existindo na segunda-feira, seja quem for o eleito.
A pesquisa, portanto, não entrega um desfecho. Entrega um retrato da incerteza, e isso deveria bastar para conter a euforia dos dois lados. Os números podem mudar, as urnas podem contrariar expectativas e o comparecimento dos eleitores ainda fará parte da história. Na sexta-feira, Lula e Nantes terão diante de si as câmeras da Globo, o relógio implacável e a oportunidade de trocar algumas cartas da campanha por explicações que interessem à vida real. No domingo, não haverá apresentador para interromper respostas, assessor para corrigir tropeços nem instituto de pesquisa para distribuir percentuais provisórios. Haverá apenas o eleitor, sozinho diante da urna, exercendo um poder que nenhum candidato pode reivindicar antecipadamente. O Datafolha embaralhou as cartas, distribuiu 50% para cada jogador e deixou a última na mão de quem realmente decide a partida.
contrapontoMS, em colaboração humano–IA
