Valfrido Silva*
Há dias em que a política brasileira parece ter sido entregue à direção artística de um roteirista com excesso de cafeína e nenhuma obrigação de respeitar a verossimilhança. Antes mesmo de abrirem as urnas, já temos gente distribuindo atestados de óbito para a democracia, anunciando o fim da civilização e preparando o luto por uma tragédia que ainda nem aconteceu. Para uns, a vitória de Lula será a desgraça definitiva; para outros, a eleição de Nantes poderá representar a ressurreição política do pai, a reabertura das portas para uma dinastia e a instalação de uma espécie de Colônia hereditária no coração da República. Cada torcida escolhe seu próprio apocalipse, encomenda a trilha sonora e espera que o eleitor, esse inconveniente personagem da democracia, cumpra o papel que lhe foi distribuído no roteiro.
É nesse teatro de certezas prematuras que convém abrir O Evangelho segundo o Espiritismo, no capítulo V, item 24, “A desgraça real”, reflexão de Delfina de Girardin publicada em Paris, em 1861. A autora chama a atenção para uma velha dificuldade humana: quase sempre julgamos a felicidade e a desgraça pela aparência imediata dos acontecimentos, como se tivéssemos recebido procuração para avaliar o destino no instante em que ele bate à porta. O que hoje parece infortúnio pode produzir consequências benéficas; aquilo que chega embrulhado em festa pode, mais adiante, revelar uma conta salgada. A lição não exige que se vista a dor com roupa de domingo, nem que se agradeça por todo desastre. Sugere, antes, prudência diante dos nossos veredictos apressados. Em matéria política, essa prudência anda tão escassa que, se fosse colocada à venda, provavelmente seria anunciada como artigo de luxo e tributada como importação.
A questão, portanto, não é fingir que todas as escolhas eleitorais são equivalentes, que os projetos em disputa oferecem os mesmos riscos ou que tanto faz entregar o país a um lado ou a outro. Isso seria neutralidade de vitrine: bonita para fotografia, inútil diante dos fatos. Há diferenças entre programas, trajetórias, compromissos democráticos e maneiras de exercer o poder. Há declarações que merecem escrutínio, ameaças institucionais que não podem ser tratadas como folclore e antecedentes que o eleitor tem o direito — e o dever — de considerar. Mas uma coisa é examinar riscos concretos; outra é transformar o adversário em encarnação do mal absoluto e imaginar que a simples vitória dele fará desabar o céu sobre nossas cabeças. A primeira atitude é política; a segunda é superstição com bandeira, comitê e assessoria de imprensa.
Para os que temem uma vitória de Nantes, a inquietação não se resume ao nome que aparecerá na urna. Está também na possibilidade de que a derrota política de Jair Bolsonaro não encerre o ciclo que ele inaugurou, mas abra caminho para sua continuidade familiar. A República não é herança de pai para filho, e a cadeira presidencial não integra o inventário de bens de uma dinastia. O receio de uma sucessão política fundada no sobrenome pode ser legítimo e merece debate sério. Mas o jornalismo não pode trocar a análise pela profecia, nem transformar uma possibilidade em fato consumado antes que os fatos existam. Tampouco cabe confundir crítica contundente com licença para inventar. O passado deve ser lembrado, as promessas devem ser examinadas e as instituições devem ser defendidas, sem que o medo seja promovido a método de apuração.
Do outro lado, quem considera a eventual vitória de Lula uma desgraça precisa explicar, para além do grito de guerra, quais consequências concretas fundamentam esse diagnóstico. Não basta repetir que o mundo acabará porque o candidato rejeitado venceu. Democracia não é um mecanismo destinado a confirmar eternamente as preferências de cada eleitor; é justamente o sistema que obriga todos a conviver com a possibilidade da derrota. Isso não significa aplaudir o vencedor, conceder-lhe cheque em branco ou suspender a fiscalização até a próxima eleição. Significa reconhecer o resultado legítimo, cobrar o cumprimento das promessas e vigiar o exercício do poder. A oposição não é um favor que o governo concede aos derrotados, assim como a vitória não é absolvição antecipada para os vencedores. O eleitor escolhe governantes, não santos; e, pelo que se conhece da espécie humana, convém não confundir as duas categorias.
É aqui que o velho insubordinado do jornalismo precisa contrariar até os seus, quando necessário. Depois de 56 anos de ofício, já deveria ter aprendido que a obrigação do jornalista não é fornecer munição para a torcida, mas incomodar a certeza de quem se julga dono da verdade. Se a vitória do adversário provoca pânico, cabe perguntar se o temor está apoiado em fatos ou alimentado pela conveniência política. Se a vitória de um lado desperta euforia, cabe perguntar o que estamos deixando de enxergar no clarão dos fogos. O compromisso com a democracia não pode depender do resultado que nos agrada, nem a defesa da liberdade pode ser acionada apenas quando o risco ameaça a nossa própria trincheira. Jornalismo que só investiga o inimigo é panfleto com crachá; jornalismo que poupa os amigos é relações públicas disfarçada de consciência crítica.
A reflexão de Delfina de Girardin não nos entrega uma bola de cristal, muito menos uma senha espiritual para declarar que toda derrota é, secretamente, uma bênção. Ela nos convida a desconfiar da aparência imediata e a considerar as consequências. A desgraça real, na vida pública, talvez não esteja simplesmente em Lula vencer ou Nantes vencer, mas naquilo que nós, cidadãos, permitimos que aconteça depois: o enfraquecimento das instituições, a naturalização da mentira, a perseguição de adversários, o desprezo pelos direitos, a transformação do debate em guerra permanente e a convicção de que qualquer barbaridade se torna aceitável quando praticada pelo nosso lado. Uma vitória eleitoral pode ser corrigida pelo voto futuro; o estrago causado pela renúncia coletiva ao pensamento crítico costuma ser bem mais trabalhoso de reparar.
Enquanto esperamos o pilili das urnas, a curicaca pode atravessar a rua, ciscar a fruta caída no canteiro e levantar voo em direção à Monte Alegre. O escriba pode até achar graça no espetáculo e procurar algum sinal no comportamento da ave, afinal, jornalista também é gente, e gente adora atribuir significado ao que não consegue controlar. Mas a curicaca não é instituto de pesquisa, o Evangelho não é boletim eleitoral e a ansiedade de cada torcida não constitui evidência. Quando os números aparecerem, haverá vencedores, derrotados, discursos triunfais, acusações e explicações de todos os tamanhos. O trabalho sério começará justamente quando terminar a contagem: olhar para os fatos sem a lente deformadora da paixão, cobrar de quem venceu e não desumanizar quem perdeu.
Porque a verdadeira desgraça talvez seja esta: perder a capacidade de julgar enquanto ainda acreditamos estar julgando; entregar a consciência à torcida e chamar isso de convicção; aceitar que o medo pense por nós e depois culpar o destino pelo resultado. O pilili dirá quem ganhou a eleição. Não dirá, por si só, quem ganhou o futuro. Esse julgamento exigirá tempo, consequências e memória — três artigos que a política costuma consumir depressa e devolver em péssimo estado.
Um brinde à democracia! E que, depois do barulho das urnas, ainda nos reste juízo suficiente para distinguir uma tragédia real de uma derrota eleitoral, uma esperança de uma ilusão e um governante de um dono da República. O insubordinado continuará por aqui, de olho nos fatos e desconfiado dos salvadores. A curicaca, por sua vez, que cuide dos próprios alfarrábios.
(*) jornalista e editor do contrapontoMS, em colaboração humano–IA, sob revisão e edição final do autor
