32.4 C
Dourados
segunda-feira, novembro 2, 2026

Finados: entre os mortos que descansam e os políticos que não se conformam

No Dia de Finados, enquanto a saudade nos leva aos cemitérios e a espiritualidade nos convida a refletir sobre a continuidade da vida, a política brasileira oferece um curioso espetáculo de almas penadas: candidatos que perderam as urnas, mas insistem em vagar pelo cenário público, e outros que nunca conseguiram sequer atravessar a fronteira entre a ambição e a existência eleitoral.

- Publicidade -

Valfrido Silva*

O calendário reserva a este 2 de novembro uma oportunidade para pensar sobre a vida, a morte e aquilo que permanece depois que o corpo se despede do mundo material. Para os que professam a Doutrina Espírita, a morte não representa o fim da existência, mas a passagem para outra condição de vida. O corpo repousa, os vínculos afetivos permanecem e a saudade, quando iluminada pela esperança, deixa de ser apenas sofrimento para se transformar em lembrança amorosa. É uma maneira de olhar para a finitude sem fazer dela uma sentença definitiva.

Essa compreensão também ajuda a explicar o sentido das visitas aos cemitérios. Milhões de pessoas atravessam seus portões neste dia para depositar flores, acender velas, limpar túmulos e permanecer alguns minutos diante dos restos mortais de quem amaram. Não há nada de inútil nesse gesto. O cemitério é um endereço da memória, um lugar em que o silêncio parece dar forma à ausência e em que a saudade encontra um cenário para se manifestar. Mas, na perspectiva espírita, o espírito não está aprisionado sob a lápide, nem depende de uma visita anual para receber o afeto daqueles que ficaram. A lembrança sincera, a prece e o amor não precisam de coordenadas geográficas.

É justamente aí que a política brasileira oferece uma inversão bastante peculiar. Enquanto os mortos de verdade não precisam demonstrar que continuam vivos, alguns políticos parecem incapazes de aceitar que a vida pública também tem seus ciclos, suas despedidas e seus funerais eleitorais. Perdem votos, mandatos, influência e até a capacidade de mobilizar os próprios aliados, mas seguem circulando como se a derrota fosse apenas um inconveniente administrativo, facilmente corrigível por uma nova dose de propaganda, dinheiro e teimosia.

O caso mais atual dessa categoria tem nome, sobrenome e passaporte: Flávio Bolsonaro, o nosso já conhecido Nantes. Derrotado nas urnas por Luiz Inácio Lula da Silva, o senador parece ter encontrado nos Estados Unidos um cenário apropriado para a sua nova condição de personagem espectral da política brasileira. Continua a emitir sinais, a distribuir declarações e a alimentar a expectativa de um retorno, como aquelas figuras de histórias de assombração que se recusam a compreender que o capítulo em que eram protagonistas já terminou.

Nantes é, por ora, o mais ilustre dos nossos finados políticos. Não porque tenha deixado de existir, evidentemente, mas porque a derrota eleitoral lhe impôs uma espécie de morte simbólica: a distância entre a ambição anunciada e a realidade produzida pelas urnas. O problema é que certos personagens não se conformam com a certidão de óbito político. Preferem rondar os corredores do poder, insinuar novas aventuras e alimentar a esperança de que o eleitorado, depois de lhes negar o futuro pretendido, acabe por lhes conceder uma ressurreição por decreto.

A ironia aumenta quando olhamos para outra categoria, menos espetacular, mas numerosa: os eternos competentes da política. São aqueles que competem, competem e tornam a competir, gastam fortunas em estruturas de campanha, contratam equipes, alugam palanques, espalham material publicitário e aparecem em fotografias com a convicção de quem já se imagina instalado no gabinete. Quando as urnas terminam de falar, porém, descobrem que todo aquele aparato não foi suficiente para lhes garantir sequer uma existência eleitoral digna de nota.

São os finados recorrentes, os profissionais da candidatura que parecem viver em campanha permanente, mas jamais conseguem atravessar a fronteira entre a promessa de poder e o poder propriamente dito. Alguns voltam a cada eleição com novo slogan, novo figurino e a mesma velha dificuldade de convencer o eleitor. Outros insistem em atribuir o fracasso à incompreensão popular, à conspiração dos adversários ou à insuficiência dos recursos investidos. A culpa, naturalmente, nunca é do defunto; é sempre do coveiro.

Há, entretanto, uma terceira categoria, que merece um capítulo à parte no nosso pequeno necrológio eleitoral: a dos candidatos cujas trajetórias parecem constituídas por uma sucessão de processos abortivos. Nem chegam a conquistar uma presença minimamente consistente no debate público, nem conseguem transformar a própria ambição em força política reconhecível. É o caso do já folclórico Jefferson Bezerra, desta vez candidato ao governo de Mato Grosso do Sul, que, em todas as suas competições, não consegue sequer aparecer como um traço nas pesquisas de intenção de voto.

A situação tem sua comicidade, mas também revela uma questão importante. Democracia não é um concurso de popularidade em que todos precisam vencer, nem um sistema que garanta a cada candidato uma fatia de relevância só porque ele decidiu disputar uma eleição. A possibilidade de concorrer é legítima; o reconhecimento popular, não. Este precisa ser conquistado. E, quando não vem, não adianta contratar uma banda para tocar na porta do cemitério, porque o eleitor não tem obrigação de comparecer ao velório de uma candidatura que nunca chegou a nascer politicamente.

É claro que há diferenças entre esses casos. Nantes chegou ao centro da disputa nacional e sofreu uma derrota; os candidatos recorrentes acumulam insucessos; outros sequer conseguem adquirir densidade eleitoral. Colocá-los na mesma procissão é uma licença da crônica, não uma equiparação de suas trajetórias. O que os aproxima, cada qual à sua maneira, é a dificuldade de reconhecer os limites impostos pela realidade — e, sobretudo, a tentação de confundir o desejo pessoal com um direito permanente à relevância pública.

No Dia de Finados, a reflexão espiritual nos lembra que a existência não se resume à matéria e que a saudade não exige a prisão dos que partiram. Esses profissionais da política, por sua vez, poderiam aprender uma lição mais prosaica: há momentos em que é preciso reconhecer o fim de um ciclo, recolher os instrumentos de campanha e permitir que a vida siga seu curso. A derrota não precisa ser uma tragédia pessoal, assim como a vitória não confere a ninguém uma licença eterna para permanecer no centro do palco.

Os cemitérios estarão cheios de flores, orações e lembranças. Ali, o silêncio não significa fracasso; significa respeito. Já no cemitério eleitoral, a insistência em ressuscitar candidaturas sem apoio popular pode transformar a saudade do poder numa comédia interminável. E, nesse terreno, Nantes talvez seja apenas o espectro mais visível de uma procissão muito maior.

Aos mortos que partiram, nosso respeito. Aos vivos que sentem saudade, nossa solidariedade. Aos políticos que perderam a hora de sair de cena, um conselho fraterno: nem toda derrota exige uma ressurreição, nem toda candidatura merece uma segunda vida, e nenhuma urna tem obrigação de transformar ambição em destino.

Afinal, a morte física não escolhe seus visitantes, mas a morte eleitoral tem uma particularidade democrática: é o eleitor quem decide quem continua vivo na política — e quem vai precisar aprender a descansar em paz.

- Publicidade -
- Publicidade -
- Publicidade -

Últimas Notícias

Últimas Notícias

- Publicidade-