Valfrido Silva*
Há palavras que parecem simples até que a vida se encarregue de mostrar a distância entre conhecê-las e possuí-las. Envergadura é uma delas. Uma rápida consulta ao Google resolve o problema do vocabulário: capacidade, estatura, amplitude, grandeza para enfrentar desafios proporcionais à responsabilidade assumida. Mas nenhum dicionário, por mais completo que seja, consegue transferir a alguém aquilo que a experiência, a história e o exercício da vida pública levam décadas para construir. A palavra pode ser aprendida em segundos; a envergadura, não.
Talvez fosse conveniente recomendar uma googada aos bolsonaristas inconsoláveis que ainda confundem a liderança de um país continental com a exibição de sobrenomes, a arrogância de palanque e a disposição de transformar qualquer derrota em conspiração. Diante da miopia sectária, que não escuta a voz rouca das ruas nem aceita a soberania do voto quando o resultado contraria seus desejos, o problema já não é propriamente de interpretação. É de dimensão. Falta envergadura para compreender que a democracia não é um contrato de aluguel com renovação automática para uma família, tampouco um jogo cujas regras só valem quando o placar agrada.
É nesse ponto que os currículos de Luiz Inácio Lula da Silva e da família Bolsonaro deixam de ser simples biografias e passam a funcionar como retratos de duas concepções distintas de política. De um lado, um retirante nordestino, filho de uma família pobre, torneiro mecânico, dirigente sindical, sobrevivente de derrotas eleitorais e protagonista de uma trajetória que o levou à Presidência da República. De outro, uma pretensiosa dinastia que fez da política uma extensão do próprio sobrenome e que, diante da derrota, parece ter dificuldade para distinguir a vontade do eleitor de uma afronta pessoal.
Lula não nasceu presidente, nem recebeu a faixa presidencial como herança. Foi construindo seu caminho na contramão das facilidades. Perdeu eleições, enfrentou adversários, atravessou crises, voltou a disputar o voto popular e chegou ao poder pela via democrática. Em vez de transformar cada derrota em certificado de fraude, persistiu. Em vez de reivindicar para si uma espécie de direito natural à Presidência, submeteu-se novamente ao julgamento das urnas. Sua trajetória não o torna infalível — nenhum governante é —, mas ajuda a explicar a envergadura política que adquiriu ao longo de décadas.
A história também registra o reconhecimento internacional que Lula alcançou. Em abril de 2009, durante a reunião do G20, em Londres, Barack Obama, um dos presidentes mais populares dos EUA, não o troglodita que hoje acolhe os Bolsonaro, apontou para o presidente brasileiro e o chamou de “the guy”, o cara!, acrescentando que ele era o político mais popular do mundo. Lula recebeu o elogio com humor. O episódio tornou-se símbolo de um momento em que o Brasil ocupava espaço relevante na conversa internacional e seu chefe de Estado era tratado como interlocutor de peso. Não é pouca coisa para quem começou a vida longe dos salões em que se decide o destino das nações.
A envergadura, entretanto, não se mede apenas na fotografia com presidentes estrangeiros. Ela aparece sobretudo nos momentos em que a política exige sangue-frio. E foi justamente isso que Lula expôs na primeira entrevista coletiva após a vitória, ao recordar o debate com Flávio Bolsonaro no segundo turno. O presidente eleito relatou o constrangimento que sentiu ao ter de enfrentar, depois de décadas de vida pública e de conversas com alguns dos principais dirigentes do planeta, um adversário cuja postura considerava marcada por mentiras e provocações.
A dimensão do episódio não está apenas na queixa de Lula. Está no contraste que ela revela. O homem que já havia negociado com chefes de Estado, discutido os destinos da economia mundial e representado o Brasil em fóruns internacionais precisou se submeter ao que considerou uma das experiências mais constrangedoras de sua trajetória política: um debate presidencial em que, como relatou, a discussão de propostas cedeu espaço à desqualificação do adversário. E, ainda assim, compareceu, enfrentou e deixou que a decisão final coubesse ao eleitor.
Não abandonou a disputa porque considerava o adversário desleal. Não pediu a intervenção de um governo estrangeiro para alterar o resultado. Não se proclamou vencedor antes que as urnas falassem. Esperou o julgamento popular. Quando o resultado foi conhecido, comemorou com a multidão e voltou os olhos para a tarefa seguinte: continuar a governar. É aí que a envergadura deixa de ser conceito abstrato e se transforma em comportamento.
E há um detalhe naquela comemoração que merece atenção. Na fotografia que ilustra esta crônica, Lula aparece empunhando a Bandeira do Brasil enquanto a multidão, a seu pedido, entoa o Hino da Independência — não o Hino Nacional. A escolha não é desprovida de significado. Em meio a uma disputa na qual setores da direita tentaram se apropriar da bandeira, das cores nacionais e dos símbolos da pátria, Lula convoca o povo a cantar justamente a independência. O gesto pode ser lido como um recado: o Brasil é soberano, não tem dono e não precisa de tutela estrangeira para decidir seus próprios destinos. A bandeira pertence a todos; a independência, também. Às vezes, um gesto diz mais do que uma longa sequência de discursos. E talvez tenhamos deixado passar esse detalhe justamente porque estávamos ocupados demais acompanhando a gritaria dos derrotados.
A fuga de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos, sob a sombra política de tio Trump, acrescentou um capítulo particularmente revelador a esse contraste. O episódio ganhou contornos quase farsescos: enquanto o derrotado se deslocava para o território de um aliado estrangeiro, a política brasileira continuava presa à gritaria, às suspeitas lançadas sem demonstração suficiente e às tentativas de manter viva uma disputa que as urnas haviam encerrado. O tapete vermelho, nesse cenário, ganha uma ironia involuntária. Há quem atravesse fronteiras em busca de acolhimento político; há quem permaneça no país e precise enfrentar o trabalho de transformar votos em governo.
Lula não precisava responder à movimentação de Nantes com outro espetáculo. Não era necessário disputar a última palavra, alimentar o duelo de declarações ou emprestar a garganta presidencial a mais uma rodada de provocações. A resposta política estava em outro lugar: preparar a transição, conversar com as lideranças do Congresso e organizar o próximo governo. Enquanto uns pareciam empenhados em prolongar a campanha depois de derrotados, o presidente eleito tinha uma agenda a cumprir.
É também por isso que o episódio merece ser observado à luz da relação de Lula com Trump. Os dois já demonstraram, em encontros públicos, capacidade de conversar e até de produzir uma química pessoal inesperada, apesar das diferenças políticas e ideológicas. Na diplomacia, a cordialidade entre adversários não é sinal de submissão; é instrumento de negociação. Presidentes não precisam ser amigos íntimos, compartilhar projetos ou trocar elogios permanentes para defender os interesses de seus países. Precisam ter dimensão para compreender que relações internacionais não são brigas de condomínio nem disputas familiares transferidas para o mapa-múndi.
Trump pode manifestar simpatias, cultivar alianças e fazer seus cálculos eleitorais, inclusive diante das eleições de meio de mandato que acontece nesta terça-feira nos Estados Unidos. Isso não significa que a política externa americana se reduza à proteção dos interesses de uma família brasileira. Muito menos que o Brasil deva aceitar qualquer tentativa de ingerência como se sua soberania fosse um favor concedido por Washington. Um país respeitado negocia; não se ajoelha. Dialoga; não terceiriza sua vontade popular.
A envergadura de Lula também será medida pelo governo que conseguir entregar. A vitória eleitoral não é cheque em branco, e a estatura histórica não dispensa resultados concretos. O Congresso terá de ser negociado, as promessas terão de sair do palanque e chegar à vida real, e os problemas brasileiros continuarão exigindo decisões difíceis. Lula sabe, ou deveria saber, que vencer uma eleição é uma coisa; governar com responsabilidade é outra. A experiência acumulada lhe dá instrumentos, mas não o dispensa de prestar contas.
A diferença, portanto, não está em imaginar Lula acima de críticas ou transformar o presidente em personagem infalível. Está em reconhecer que a trajetória de um líder se revela tanto na capacidade de superar derrotas quanto na maneira de lidar com a vitória. O retirante que chegou à Presidência depois de sucessivas tentativas compreendeu que a porta do poder se abre pelo voto. O bolsonarismo, ao contrário, oferece a impressão de que ainda procura uma chave alternativa para uma porta que o eleitor fechou.
A questão nunca foi negar a ninguém o direito de persistir. Lula é, aliás, o exemplo mais conhecido de que derrotas sucessivas não impedem uma vitória futura. A diferença é o caminho percorrido entre uma eleição e outra. Lula voltou a disputar o voto popular; não reivindicou para si uma vitória que não obtivera. Persistir dentro das regras democráticas é legítimo. Recusar-se a reconhecer o resultado, alimentar suspeitas sem provas e buscar atalhos para reverter a vontade soberana do eleitor é outra história.
Eis a envergadura: não é falar mais alto, ameaçar mais, mobilizar seguidores contra instituições ou procurar um padrinho estrangeiro que ajude a reescrever o resultado. É suportar a contrariedade sem destruir as regras do jogo. É reconhecer que o adversário continua tendo direitos depois de vencer e que o derrotado continua tendo direitos depois de perder — desde que ambos respeitem a democracia que lhes permite disputar o poder.
No fim, a história de Lula e o episódio de Nantes oferecem uma aula involuntária de proporções. Um saiu da pobreza, atravessou derrotas e chegou à Presidência; o outro, derrotado, procurou abrigo político no exterior e continuou a alimentar a disputa. Um precisa preparar o governo de um país inteiro; o outro precisa decidir o que fazer com a própria derrota. Não são destinos imutáveis, porque a política admite recomeços. Mas tampouco são currículos equivalentes.
Lula é “o cara”, como disse Obama. A frase atravessou o mundo, mas talvez a prova mais eloquente dessa envergadura esteja menos no elogio de um presidente americano do que na diferença entre o que Lula fez com suas derrotas e o que o bolsonarismo parece fazer com a própria derrota. Um transformou reveses em novas disputas democráticas; o outro continua procurando atalhos. E, para quem aspira governar um país continental, não há googada que resolva essa diferença. É preciso ter envergadura.
(*) jornalista e editor do contrapontoMS, em colaboração humano–IA, sob revisão e edição final do autor
