27/09/2016 – 05h39
Em pesquisa da CNN logo após primeiro debate na TV, 62% dos entrevistados deram vitória a democrata
WASHINGTON — O esperado primeiro debate entre Hillary Clinton e Donald Trump foi tenso, cheio de interrupções — com a democrata atacando mais o republicano. Usando de ironia, Hillary deixava frases soltas para tirar Trump do sério — e ele parece ter caído na armadilha no começo do debate, interrompendo a concorrente, às vezes com um tom exaltado, mais de 40 vezes em menos de uma hora. Hillary tentava mostrar-se mais preparada para assumir o país, enquanto Trump tentava colar na democrata a rejeição que os americanos têm sobre os políticos em geral. Em pesquisa da CNN logo após o final, 62% dos entrevistados deram vitória a Hillary, enquanto apenas 27% acharam que Trump foi melhor.
Na resposta à primeira pergunta do mediador, na Hofstra University, em Nova York, sobre como melhorar a economia, Hillary começou dizendo que a eleição é sobre “que tipo de países queremos”. A democrata disse que vai investir em inovação, tecnologia, pequenas empresas e empregos que virão em projetos envolvidos com a mudança climática, que segundo ela, “Trump acredita ser invenção de chineses”.
A acusação levou o republicano a, logo no começo, reagir dizendo que nunca tinha dito isso — embora um tuíte seu, de 2012, mostrasse exatamente a afirmação, que a oponente aproveitou para retuitar minutos depois. Os ataques dela — vestida de vermelho, cor do partido rival, enquanto Trump usava uma gravata azul, também a cor da legenda oponente — se seguiram:
— Bem, Donald, eu sei que você vive em sua própria realidade, que não se baseia nos fatos — alfinetou.
Em outro, quando foi acusada de não ter um plano para a economia, foi novamente irônica:
— Tenho sim, escrevi um livro sobre isso, está em todas as bancas, até no aeroporto — disse Hillary, arrancando risos.
Ela afirmou que Trump sempre teve “sorte” na vida e que ganhou US$ 14 milhões de seu pai e, por isso, não entende os anseios da população mais humilde. Em outro momento, ela ironizou os ataques do republicano.
— Tenho a sensação de que até o final desta noite tudo vai ser minha culpa.
— Sim, é tudo culpa sua — rebateu Trump, que fungava muito, indicativo de que poderia estar resfriado.
A democrata não se deixou intimidar e contra-atacou:
— Fique no debate dizendo as coisas mais loucas.
Trump rebateu dizendo que “não há nada de louco por não deixar as nossas empresas trazer o seu dinheiro de volta para o nosso país”. O republicano afirmou, ainda, que o governo de Bill Clinton assinou o Nafta, o acordo comercial entre EUA, México e Canadá, que “roubou milhares de empregos de americanos” e que pouco foi feito por ela, que “não criou nenhum emprego nos últimos 30 anos”.
— Hillary Clinton faz o mesmo que todos os políticos: muito discurso, pouca ação.
Em outro momento tenso do embate — que durou uma hora e meia, sem intervalos — Trump foi pressionado pelo mediador Lester Holt, da NBC, a apresentar sua declaração de renda — ele é o único candidato que não fez isso nos últimos 40 anos. O magnata disse que não a liberou porque ela está “sob auditoria”, mas que poderia fazer isso ” sem a autorização de seus advogados”.
Tentando sair para o contra-ataque, disse que liberaria seus dados fiscais se Hillary “exibisse os 30 mil e-mails que ela deletou” e não entregou para o FBI, na investigação sobre se ela cometeu crime ao enviar e-mails quando era secretária de Estado a partir de suas contas pessoais.
Hillary rebateu, dizendo que cometeu um erro no caso dos e-mails e que assumiu suas responsabilidades. Ela então partiu para cima do oponente, dizendo que “Trump estava escondendo algo” sobre as declarações fiscais. Ela listou ainda outras possibilidades: ou não é tão rico quanto imagina, ou deve US$ 600 milhões a bancos estrangeiros, ou não doa tanto à caridade quanto diz ou paga menos imposto que muitos trabalhadores.
A expectativa sobre o debate era muito grande. Estimava-se que 100 milhões de americanos acompanhariam o duelo em diversas redes de televisão, batendo o recorde de audiência para um evento político. E ele ocorre a 43 dias das eleições e com ambos empatados: segundo a média das pesquisas do site “realclearpolitics”, Hillary tem 43,1% das intenções de voto, contra 41,5% de Trump. Atrás, estão Gary Johnson (Libertários) com 7,4% e Jill Stein (Verde) com 2,4%. Hillary e Trump se enfrentarão novamente do dia 9 e 19 de outubro. No dia 4, os candidatos a vice (o democrata Tim Kaine e o republicano Mike Pence) terão um debate.
Ataques pessoais
Ainda nas discussões, Hillary tentando colar em Trump a imagem de alguém despreparado para a Presidência:
— Donald me criticou por ter me preparado muito para este debate. Sim, fiz isso. E sabe por quê? Porque estou me preparando para ser presidente — disse ela, arrancando aplausos da plateia.
Os candidatos divergiram muito sobre política externa, no fim do debate. A democrata afirmou que ficou “chocada” com Trump ao pedir a Vladimir Putin, presidente russo, para espionar cidadãos americanos. Ele rebateu dizendo que é o mais preparado para ser Comandante-em-chefe e que recebeu o apoio de 200 almirantes e generais.
Ambos também divergiram muito sobre o papel da Otan e a Guerra do Iraque. Trump acusou Hillary de, como secretária de Estado, ter deixado o “vácuo” que permitiu o surgimento do Estado Islâmico. Hillary contra-atacou, dizendo que ela sabe como agir contra o grupo terrorista, em parcerias com aliados curdos e árabes, e que Trump não mostra seus planos por argumentar que são segredo.
— Talvez não tenha plano.
O debate foi cercado de ataques pessoais. Trump disse que Hillary não tem energia para ser presidente e, arrancando risos da plateia, afirmou que tem melhor “temperamento” para ser presidente — ele é acusado de ser explosivo e intempestivo:
— Eu tenho muito melhor juízo do que ela. Não há dúvida sobre isso. Também tenho um temperamento muito melhor.
Hillary, por sua vez, atacou fortemente seu caráter sexista:
— Donald, você chamou uma das participantes de seu concurso de beleza de origem venezuelana, de “Miss Piggy” (porca), e de “Miss Housekeeping”, (dona de casa) — disse ela, apelando ao mesmo tempo ao voto hispânico e feminino.
Após o encerramento, Trump reclamou do confronto, dizendo que o mediador não tratou de nenhum dos piores temas para Hillary, como o caso dos e-mails, a “corrupta” Fundação Clinton ou Benghazi. Hillary, por sua vez, tuitou agradecendo o debate e dizendo que a “Presidência não é um reality show”. (Henrique Batista/O Globo)

