03/10/2016 – 09h40
A vitória de Délia Razuk sobre Geraldo Resende serviu para desmistificar o surrado conceito de que dinheiro e máquina governamental são fatores decisivos para se vencer uma eleição. E, na ordem inversa da coisa, para reafirmar a máxima popular de que quando o eleitor desembesta, provocando o não menos popular “estouro de boiada” não há mala-preta que dê jeito. Com uma campanha franciscana, Délia derrotou, numa só tacada, o governador Reinaldo Azambuja, o ex-governador André Puccinelli, o prefeito Murilo Zauith, os deputados Zé Teixeira, José Carlos Barbosa e George Takimoto, além de cabos eleitorais ilustres como vice-prefeito Odilon Azambuja e o ex-deputado Valdenir Machado.
Claro que o deputado Geraldo Resende foi quem mais ajudou Délia Razuk neste triunfal retorno, ops!, à prefeitura de Dourados – ela que foi a encarregada de segurar a peteca no conturbado período de transição da Uragano. Não fosse o tal do bicho-carpinteiro, tivesse ele conseguido sossegar o facho no PMDB e o desfecho dessa eleição certamente teria sido outro. Além de colocar Délia como maior ponto de referência da política regional, Geraldo criou outro “monstrinho” para atazanar sua vida a partir de agora, pois que Renato Câmara, que ocupou o vácuo por ele deixado no PMDB, e que depois de Délia foi quem mais ganhou com esta eleição, já deve estar pedindo votos para deputado federal em 2018, como parte de seu projeto de substituir André Puccinelli no comando do PMDB estadual e Reinaldo Azambuja no governo do Estado.
Claro também que não foi menos importante o maquiavelismo de Murilo Zauith. Com uma administração robusta, mas pagando um alto preço por ser turrão, recusando-se, peremptoriamente, a se curvar a um assessoramento profissional na área de comunicação, o prefeito limitou-se a jogar para mostrar a Geraldo Resende com quantos paus se faz uma canoa. Quando liberou seu PSB para apoiar a candidatura tucana com a condição de que o candidato à vice deveria ser Waltinho Carneiro ele antecipava a sentença de morte da candidatura tucana. Com Waltinho vetado, Zauith foi mais longe e, como que se divertindo da desgraça do figadal adversário, tramou pela indicação de seu segurança e churrasqueiro, o ilustre desconhecido Rogério Yuri. Aí a coisa desandou de vez.
Menos mal para Délia Razuk, diante dos contornos que pareciam intransponíveis para sua candidatura. Lançada candidata sonhando com um substancial apoio de Edson Giroto, quando o preposto de André Puccinelli ocupava o segundo mais importante cargo na hierarquia do Ministério dos Transportes, antes de ser preso na operação Lama Asfáltica, teve que se contentar com o “apoio” do cacique Londres Machado, com a marca do PT na testa e todo o ranço da velha política clientelista estadual. Não bastasse o próprio PT, que oficialmente apoiou Renato Câmara, mas cuja militância – Zeca do PT à frente – estava toda com ela. Pior, desde o início da campanha já delimitando espaço para continuar ocupando os postos que tratam como vitalícios na prefeitura desde a administração Tetila.
Além de todos esses problemas políticos e de logística, Délia Razuk ainda teve que se dividir entre o corpo-a-corpo da campanha e o tratamento médico-hospitalar de seu maior cabo eleitoral, aliás, um general eleitoral, o ex-deputado Roberto Razuk, com a saúde debilitada já há algum tempo. Mas, até disso ela tirou proveito, já que uma vez fustigada por Geraldo Resende nos debates quanto ao papel da “figura emblemática” do marido em sua administração ela acabou se vitimizando ainda mais. É que por isto e por suas vinculações com o PT Délia já vinha sendo massacrada nas redes sociais com uma das campanhas mais sórdidas que se tem notícia na historia das eleições em Dourados. Mas, com sua fé inabalável, diferentemente dos adversários que cantavam vitória antes da hora, ela repetia insistentemente: “só vou ser prefeita se for da vontade de Deus”. Pois vai ser.
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