04/11/2016 – 08h53
Pouco mencionada na corrida sucessória americana, região prevê vida ainda mais difícil se Trump for eleito
BUENOS AIRES – Manter o status quo ou mergulhar numa aventura desconhecida e assustadora. Isso é o que representam para a América Latina, na opinião de analistas da política internacional as duas opções eleitorais que disputam a Presidência dos Estados Unidos. A ex-secretária de Estado Hillary Clinton seria, de acordo com os especialistas, uma clara continuidade do governo democrata de Barack Obama, que não implicaria grandes sobressaltos para o continente. Já o republicano Donald Trump é considerado um grande mistério em matéria de política internacional e visto como uma ameaça de consequências ainda incertas para os países latino-americanos.
Em recente artigo publicado no jornal “Novo Herald”, a candidata democrata defendeu a “unidade” entre os EUA e a América Latina e acusou seu rival de “olhar para o sul e ver apenas crime e caos”. Hillary prometeu “aprofundar os vínculos” com a região e elogiou “recentes mudanças” em países do continente.
A realidade, apontaram os analistas, é que a América Latina teve pouquíssima importância na campanha presidencial e não é hoje uma prioridade da política externa americana. Com exceção da polêmica em relação ao muro que Trump disse pretender construir na fronteira entre os EUA e o México, a região esteve ausente dos grandes debates e da campanha em geral.
Mas a agenda entre latino-americanos e a Casa Branca tem pontos importantes, como a política migratória, acordos comerciais e alianças políticas bilaterais importantes para países como Brasil, Argentina, Colômbia e Chile.
— Acho que mudará o presidente, provavelmente ganhará Hillary, mas não a agenda. Com Trump, o que parece cada vez menos provável, o impacto seria muito maior — disse Ignácio Labaqui, professor de política latino-americana da Universidade Católica Argentina (UCA).
Para ele, o candidato republicado seria “um tsunami, uma ruptura das regras internacionais”.
— É uma pessoa sem experiência. Para a Argentina, um eventual governo Trump seria trágico, porque hoje nosso país depende muito do financiamento externo, e qualquer risco de instabilidade nos mercados nos afeta — comentou Labaqui.
Trump propôs rever todos os acordos comercias de livre comércio assinados pelos EUA com outros países e blocos comerciais, começando por México e Canadá. Hillary também fez críticas à globalização e defendeu uma maior proteção ao comércio internacional, mas não chegaria ao ponto de recuar em decisões de governos anteriores, assegurou o analista peruano Luis Davelouis.
— Para o Peru, primeiro país da região a ter um tratado de livre comércio com os EUA, uma eventual vitória de Trump seria catastrófica — analisou Davelouis, lembrando que o tratado foi usado pelo Peru como modelo para entendimentos posteriores. — As condições que impusemos aos EUA foram mantidas em outros tratados e não podem ser modificadas.
O candidato republicano não fez muitas menções à região durante a campanha, e em uma das poucas vezes em que o fez, disse que “por todo o continente as pessoas estão oprimidas”.
— Obama e Hillary abandonaram nossos amigos latino-americanos e os entregaram à pobreza e ao desemprego aqui em casa — declarou Trump, que no começo da campanha ameaçou deportar 11 milhões de imigrantes ilegais que vivem atualmente nos EUA, em sua grande maioria latino-americanos.
Nas últimas semanas, o candidato republicano moderou o discurso e afirmou que deportaria apenas pessoas com antecedentes penais.
Já Hillary defende a aprovação de uma ampla reforma migratória e insiste em dizer que quer “incluir” e “respeitar” todas as comunidades, nacionalidades e religiões que convivem nos EUA.
Uma eventual deportação de latino-americanos poderia ter graves consequências para a economia de muitos países, já que se estima que este grupo de imigrantes envie remessas de US$ 65 bilhões por ano a suas famílias.
— Com Trump não há dúvida de que a política migratória seria mais dura. Os imigrantes viveriam melhor com Hillary — disse o uruguaio Francisco Faig, colunista do jornal “El País”, que alertou para mudanças em relação ao livre comércio. — Com certeza vai crescer e se fortalecer uma posição mais protecionista.
Relação com bolivarianos é incógnita
Uma das incógnitas entre os analistas é saber como mudaria a relação entre os EUA e os chamados governos bolivarianos com Hillary ou Trump. Está claro que a ex-secretária de Estado manterá a política de defesa da democracia e dos direitos humanos do governo Obama. Mas ela poderia ser mais dura, por exemplo, em relação a Cuba — país que ainda espera a suspensão do bloqueio econômico — e Venezuela.
— O presidente Nicolás Maduro deveria pensar em restabelecer as relações com os EUA. Acho que dependerá mais da Venezuela do que do futuro presidente americano — assegurou Carlos Romero, professor da Universidade Central da Venezuela (UCV).
Ele acha que Trump poderia ter uma posição “mais focada no petróleo e não tanto na democracia e nos direitos humanos”.
— Se Maduro continuar no caminho do autoritarismo, terá problemas, com Trump ou com Hillary — concluiu Romero. (Janaina Figueiredo/O Globo)

