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quarta-feira, setembro 23, 2026

Azambuja estatiza o FGC, extingue o Meio Ambiente e metralha o próprio palanque

O candidato que pretende ser “o senador do agro” chama fundo privado de dinheiro público e propõe eliminar justamente o ministério que deveria proteger as condições ambientais da produção

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Valfrido Silva *

O ex-governador Reinaldo Azambuja resolveu fazer campanha para o Senado com a espingarda apontada para o próprio palanque. Primeiro, propôs a Flávio Bolsonaro a extinção do Ministério do Meio Ambiente, como se a crise climática fosse uma repartição pública que pudesse ser fechada por decreto. Agora, ao atacar Daniel Vorcaro e a crise do Banco Master, declarou que o Fundo Garantidor de Créditos do Banco Central seria formado por dinheiro público. Em duas manifestações, acabou por diminuir o meio ambiente, estatizar um fundo privado e criar problemas para o candidato presidencial de seu próprio partido. Tiro no pé é pouco. Reinaldo parece ter entrado na campanha disposto a testar quantos pneus do mesmo trator consegue furar antes da eleição.

Comecemos pelo FGC. Reinaldo disse estar “estarrecido” com o fato de Alexandre de Moraes não ter sido afastado para investigação e sustentou que as relações reveladas entre ministros e Daniel Vorcaro envolviam dinheiro público. “O Fundo Garantidor de Crédito do Banco Central é dinheiro público para a falcatrua que o Vorcaro fez”, afirmou. Há dois erros na mesma frase. O FGC não pertence ao Banco Central e não é constituído por dinheiro público. Seu estatuto o define como associação civil sem fins lucrativos, com personalidade jurídica de direito privado, e esclarece expressamente que a entidade não exerce função pública, nem mesmo por delegação. Seus recursos vêm principalmente das contribuições das instituições financeiras associadas.

Isso não torna o caso Banco Master menos grave, nem elimina o interesse público numa crise capaz de abalar a confiança no sistema financeiro e atingir milhares de depositantes e investidores. Uma coisa, porém, é reconhecer as consequências públicas do desastre; outra é mudar a natureza jurídica do dinheiro para adequá-la ao discurso eleitoral. Se o objetivo era cobrar rigor na apuração, bastava exigir investigação, transparência e responsabilização. Não era necessário promover o FGC a repartição do Banco Central no meio de uma entrevista.

A escorregada fica ainda mais interessante porque Flávio Bolsonaro, candidato do mesmo PL à Presidência da República, insiste em classificar como privadas suas tratativas com Vorcaro para financiar o filme Dark Horse. Segundo as informações já divulgadas, Flávio pediu R$ 131 milhões ao banqueiro e recebeu R$ 65 milhões para o projeto. Assim, no mesmo palanque, o dinheiro de Vorcaro muda de natureza conforme a necessidade do orador: é rigorosamente privado quando passa perto de Flávio Bolsonaro e milagrosamente público quando Reinaldo Azambuja precisa atacar o Supremo.

Mas o FGC não foi o único alvo atingido pelo fogo amigo. Reinaldo, que se apresenta como futuro “senador do agro brasileiro”, foi taxativo ao revelar o conselho dado ao candidato presidencial de seu partido: “Propus ao Flávio: se quiser que o Brasil dê certo, tem que, primeiro, acabar com o Ministério do Meio Ambiente.” Não sugeriu reformar a pasta, reduzir a burocracia, estabelecer prazos para o licenciamento ou corrigir eventuais excessos. Para ele, o primeiro passo para o país funcionar seria simplesmente extinguir o ministério e transferir suas atribuições para uma estrutura subordinada ao Ministério do Desenvolvimento. Na contramão do debate mundial sobre a emergência climática, o representante do agro oferece ao Brasil uma solução extraordinariamente simples: se o meio ambiente atrapalha, acaba-se com o ministério encarregado de protegê-lo.

É legítimo discutir a eficiência da pasta, os excessos burocráticos, a lentidão do licenciamento e até a contaminação ideológica de órgãos públicos. Instituição alguma deve ser protegida da crítica apenas porque carrega uma causa nobre no nome. O salto mortal está em concluir que a resposta para um ministério eventualmente ineficiente seja acabar com ele e entregar sua função a uma pasta cuja missão principal é estimular aquilo que deveria também fiscalizar. Seria como subordinar o árbitro ao departamento de futebol de um dos times e chamar a mudança de despolitização.

O paradoxo torna-se maior porque a proposta parte justamente de um líder do agronegócio. Poucos setores possuem interesse tão direto na estabilidade climática, na preservação das águas, na conservação do solo e na regularidade das chuvas quanto a agricultura e a pecuária. O agro não produz em discurso, postagem ou vídeo de campanha. Produz sob sol, chuva, estiagem, geada, enchente e incêndio. Depende de condições ambientais que nenhuma canetada presidencial consegue revogar. Além disso, disputa mercados internacionais cada vez mais exigentes quanto à origem dos produtos e ao cumprimento de regras ambientais. Preservação deixou há muito tempo de ser ornamento para ambientalista: tornou-se segurança econômica, reputação comercial e condição de sobrevivência do próprio produtor.

Os políticos do Mato Grosso do Sul deveriam saber disso melhor que ninguém. O Estado abriga parte importante do Pantanal, convive com períodos de seca severa, incêndios devastadores e mudanças no regime das águas. Ao mesmo tempo, sustenta parcela expressiva de sua economia na produção rural. Tratar o meio ambiente como obstáculo ao desenvolvimento é ignorar que, sem ele, não haverá desenvolvimento para destravar. A burocracia pode emperrar uma licença; a devastação pode inviabilizar uma atividade inteira. Combate-se a primeira com gestão, tecnologia, prazos e responsabilidade. A segunda, muitas vezes, não oferece possibilidade de recurso administrativo.

Reinaldo pretende chegar ao Senado como representante do setor produtivo e homem experiente na administração pública. Essa experiência deveria ajudá-lo a escapar das soluções fáceis para problemas complexos. O Ministério do Meio Ambiente pode precisar de reforma, mas o clima não desaparecerá junto com a placa na porta. O FGC protege interesses de relevância pública, mas não vira dinheiro estatal porque um candidato pronunciou a frase diante das câmeras. E Vorcaro não pode ser tratado como banqueiro privado quando interessa a Flávio e como saqueador de recursos públicos quando convém a Reinaldo.

Em poucos dias, o ex-governador propôs o desaparecimento de uma instituição ambiental como condição para o Brasil dar certo e inventou a estatização de uma instituição financeira privada. Para quem deseja ser o senador do agro, é uma colheita considerável de contradições. Tiro no pé, realmente, é pouco. Reinaldo está plantando contra o clima e esperando colher votos.

(*) jornalista e editor do contrapontoMS. Texto produzido com assistência de IA, sob revisão, edição final e responsabilidade do autor.

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