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quarta-feira, setembro 30, 2026

Lula aposta na segunda zebra de Soraya para redesenhar o Senado por Mato Grosso do Sul

O abraço do presidente à antiga bolsonarista revela uma operação maior: conquistar votos agora, eleger senadores aliados e deixar abertas as portas para as composições do segundo turno

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A fotografia talvez explique melhor a política brasileira do que muitos discursos. Fábio Trad, Soraya Thronicke, Lula e Vander Loubet aparecem sorridentes, ombro a ombro, num corredor de paredes vermelhas. Fábio disputa o governo pelo PT; Vander concorre ao Senado pelo mesmo partido; Soraya tenta a reeleição pelo PSB; e Lula, no centro da cena, parece o único que já conhece todas as portas daquele corredor. Não por acaso. Aos 80 anos, o presidente continua dominando como poucos a arte de transformar adversários de ontem em aliados de hoje e, se necessário, em ministros de amanhã.

Soraya é a personagem perfeita para essa operação. Surgiu nacionalmente em 2018, quando a onda bolsonarista varreu o país e levou ao Senado uma advogada sem experiência em cargos eletivos. Foi a zebra daquela eleição em Mato Grosso do Sul: recebeu 373.712 votos, derrotou nomes tradicionais e ajudou a deixar pelo caminho o ex-governador Zeca do PT, tratado até então como favorito à cadeira. Chegou a Brasília como defensora de Bolsonaro, das privatizações e da abertura econômica, prometendo ajudar o novo governo, mas nem chegou a esquentar a cadeira na bancada presidencial. Rompeu com o líder, enfrentou os filhos, foi chamada de traidora e, quatro anos depois, apresentou-se como candidata à Presidência justamente contra o homem cuja onda a havia colocado no Senado.

Agora, Soraya tenta vestir novamente o figurino da zebra, mas trocou o cavalo no meio da travessia. Na postagem que abriu a última semana de campanha, chamou Lula de “grande estadista”, disse estar ao lado do líder que retirou o Brasil do mapa da fome e pediu votos para ela e para o presidente. É difícil encontrar transformação mais completa sem recorrer aos recursos da inteligência artificial. A antiga bolsonarista não está apenas apoiando Lula: apresenta-se como parte de seu projeto político. Na publicação feita no X, o namoro iniciado meses atrás já aparece com declaração pública, fotografia de família e promessa de caminhada conjunta.

A aproximação não nasceu ontem. Durante sua última passagem por Campo Grande, Lula deu aval à articulação que levou Soraya ao PSB e criou uma chapa informal para as duas vagas ao Senado. Vander Loubet contou que o presidente havia “sacramentado” a candidatura de Fábio Trad ao governo e estimulado uma composição senatorial que incluísse o próprio Vander e Soraya. Naquele momento, a cena parecia apenas mais uma dessas engenharias construídas muito antes da campanha e frequentemente demolidas pela realidade. Hoje, com Soraya novamente rondando a zona de classificação e fazendo campanha explícita para Lula, percebe-se que o presidente enxergava um tabuleiro maior.

Lula não está interessado apenas em ganhar a eleição presidencial. Precisa eleger o Senado com o qual pretende governar. Uma vitória apertada sobre Flávio Bolsonaro poderá entregar-lhe mais quatro anos no Planalto, mas não necessariamente condições políticas para atravessá-los. A próxima Casa tende a receber uma bancada conservadora numerosa, hostil ao Supremo e disposta a transformar cada crise numa ameaça de impeachment. Para Lula, portanto, uma cadeira conquistada por Soraya em Mato Grosso do Sul pode valer tanto quanto milhares de votos presidenciais. Ela ingressaria no novo mandato não como a bolsonarista rebelada de 2019, mas como uma senadora cuja sobrevivência política teria passado diretamente pelo aval do presidente petista.

A operação é especialmente engenhosa porque, nesta eleição, serão renovados dois terços do Senado. Lula pode pedir o primeiro voto para Vander, candidato do PT, e o segundo para Soraya, candidata do PSB. Em tese, ninguém precisa sacrificar ninguém. Na prática, o eleitor não obedece com a precisão de uma planilha partidária. Muitos votam em apenas um nome, esquecem o segundo voto ou repetem a escolha, anulando-a. Outros aceitam Lula, mas rejeitam o PT local; simpatizam com Soraya, mas não perdoam suas mudanças; votam em Vander, mas entregam a segunda vaga a um candidato da direita. É nessa confusão que as zebras costumam encontrar passagem.

As pesquisas mais recentes ajudam a compreender a aposta. Capitão Contar e Reinaldo Azambuja disputam a dianteira, enquanto Soraya e Vander aparecem atrás, mas ainda com terreno eleitoral a explorar. Contar e Azambuja brigam pelo mesmo eleitorado conservador e pela herança política de Bolsonaro. Soraya e Vander procuram somar o eleitor lulista sem se destruírem mutuamente. Se o presidente conseguir convencer sua base a utilizar os dois votos de maneira coordenada, poderá produzir uma surpresa semelhante à de 2018. E não existe nada de absurdo nisso: naquela eleição, Soraya derrubou Zeca do PT, o amigo do peito e companheiro de biritas de Lula, na onda bolsonarista; agora pretende derrubar um bolsonarista estribada no prestígio e na força da azeitada máquina política pilotada por Lula.

Nos bastidores da campanha estadual petista corre a informação de que Soraya teria sondado a possibilidade de ocupar um ministério em troca da retirada candidatura para abrir caminho para Vander. É informação que deve permanecer no terreno em que nasceu: o dos bastidores, onde todo pedido cresce e toda negativa ganha enfeites. Ainda assim, a história faz sentido dentro da lógica da composição. Lula precisava de Soraya na eleição, não apenas fora dela. Uma candidata competitiva, capaz de buscar votos fora do petismo e dividir a direita, talvez lhe seja mais útil disputando o Senado do que esperando nomeação na Esplanada.

Se ela vencer, entretanto, a conta política não desaparecerá. Apenas mudará de rubrica. Soraya chegará ao segundo mandato com legitimidade própria, mas também como beneficiária ostensiva da operação de Lula. Se perder, o presidente terá de decidir o que fazer com uma aliada recém-convertida, dona de projeção nacional e sem mandato a partir de fevereiro. Brasília dispõe de um vasto catálogo de conselhos, diretorias, secretarias, assessorias, embaixadas políticas e funções suficientemente importantes para acomodar derrotados sem lhes chamar de derrotados. Ministério seria exagero; uma boa sinecura republicana, como se diz desde que o Império descobriu os cargos de confiança, não seria novidade.

O problema poderá repetir-se com os outros dois personagens dessa eleição. Caso Fábio Trad não impeça a reeleição de Eduardo Riedel e Vander não se eleja senador, Lula terá diante de si três aliados relevantes de Mato Grosso do Sul procurando espaço no governo seguinte. Não significa que empregos tenham sido prometidos nem que as candidaturas sejam aventuras destinadas a buscar acomodação posterior. Significa apenas que alianças nacionais nunca terminam no fechamento das urnas. Vencedores recebem mandatos; derrotados apresentam faturas. E Lula, com todo o pragmatismo que lhe é peculiar, sempre soube que governabilidade também se constrói encontrando cadeiras para quem perdeu a própria.

A operação de Mato Grosso do Sul conversa diretamente com a candidatura de Simone Tebet ao Senado por São Paulo. Simone enfrentou Lula na eleição presidencial de 2022, terminou em terceiro lugar, apoiou-o no segundo turno, tornou-se ministra do Planejamento e agora tenta voltar ao Senado por outro Estado. Soraya enfrentou Bolsonaro, declarou neutralidade no segundo turno de 2022, aproximou-se de Lula e tenta permanecer na Casa por Mato Grosso do Sul. Duas antigas adversárias presidenciais, duas sul-mato-grossenses e duas candidatas encarregadas de impedir que a direita conquiste quatro cadeiras estratégicas. Lula não está apenas montando palanques; está tentando fabricar uma muralha parlamentar.

Esse movimento explica também por que o segundo turno presidencial poderá produzir alianças hoje inimagináveis. Se Lula enfrentar Flávio Bolsonaro, precisará conversar com Gilberto Kassab, vice de Ronaldo Caiado e chefe nacional do PSD. Poderá buscar a neutralidade ou até o apoio do grupo caiadista, oferecendo participação num futuro governo. Caiado na Agricultura seria uma hipótese ousada, mas coerente com o esforço de aproximação com o agronegócio. Luiz Henrique Mandetta, ligado a Caiado e expulso do governo Bolsonaro no auge da pandemia, poderia reaparecer numa negociação para a Saúde. Não há acordo conhecido nem convite formulado. Há apenas a lógica política, essa senhora sem pudor que costuma chegar antes da cerimônia e escolher os lugares à mesa.

Mandetta dificilmente apoiaria Flávio depois da forma como foi tratado por Jair Bolsonaro. Ao deixar o Ministério da Saúde, encontrou proteção política em Caiado, responsável por sua indicação ao cargo e hoje candidato do PSD à Presidência. Atualmente participa voluntariamente da campanha caiadista na coordenação de projetos para a saúde. Num eventual segundo turno entre Lula e Flávio, o grupo de Caiado terá votos, capilaridade e ressentimentos suficientes para negociar. Kassab terá a chave da porta; Lula, se precisar, levará a fechadura inteira.

É por isso que o abraço a Soraya vai muito além de Mato Grosso do Sul. Ele revela um presidente trabalhando simultaneamente para vencer a eleição, reduzir a força bolsonarista no Senado e deixar abertas as pontes para o segundo turno. Soraya, por sua vez, tenta provar que uma zebra não precisa conservar as mesmas listras durante toda a vida. Pode trocá-las, inverter as cores e reaparecer oito anos depois correndo na direção contrária.

Em 2018, ela chegou ao Senado dizendo que ajudaria Bolsonaro a mudar o Brasil. Em 2026, pede votos ao lado de Lula para impedir que o filho de Bolsonaro assuma o país. Se vencer novamente, não será apenas uma segunda zebra. Será a demonstração de que, na política brasileira, até a zebra aprende a mudar de pele, desde que encontre um presidente experiente para indicar em qual direção fica a linha de chegada.

(*) Jornalista e editor do contrapontoMS, em colaboração humano–IA, sob revisão e edição final do autor.

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