Vivaldo da Silva Melo
“A história terá de registrar que a maior tragédia deste período de transição social não foi o clamor estridente dos homens maus, mas o silêncio apavorante dos homens bons.”
Essa frase de Martin Luther King Jr. atravessou décadas, idiomas e contextos — e, como costuma acontecer com frases que ganham o mundo, também sofreu adaptações, cortes e diferentes versões. Mas seu sentido original permanece extraordinariamente atual. Em dezembro de 1957, ao falar diante da Assembleia Geral do National Council of Churches, em St. Louis, King advertia que não bastava denunciar os que praticavam o mal: era preciso reconhecer também a responsabilidade daqueles que, por medo, apatia ou conveniência, permaneciam calados enquanto ele avançava.
É difícil não pensar nisso quando se olha para o ambiente público brasileiro. Um país plural, naturalmente marcado por diferenças políticas, transformou em muitos espaços o adversário em inimigo, a divergência em ofensa e a discussão de ideias em julgamento de pessoas. As redes sociais, com sua velocidade extraordinária, amplificam esse fenômeno. Cada declaração vira munição; cada discordância pode ser interpretada como adesão ao lado contrário; e, não raramente, a vida pública termina discutindo muito mais as pessoas do que as propostas.
O resultado é uma espécie de empobrecimento do debate. Em vez de perguntarmos se determinada ideia é justa, necessária ou boa para a sociedade, frequentemente perguntamos primeiro “quem está defendendo?”. Se veio de um lado, deve ser rejeitada; se veio do outro, precisa ser defendida. A convicção substitui a reflexão. A paixão toma o lugar do discernimento. E aquilo que deveria ser política — a busca de caminhos para a vida coletiva — acaba transformado numa disputa permanente de identidades.
Desde as eleições de 2022, o país conheceu exemplos dolorosos dessa lógica. Circularam listas de pessoas e empresas que deveriam ser evitadas por causa de suas preferências políticas. Em Castanheira, como em tantos outros lugares, mensagens desse tipo chegaram aos grupos de WhatsApp. Amizades antigas foram abaladas, famílias experimentaram divisões e até espaços destinados à comunhão passaram, em determinados momentos, a carregar as marcas da disputa política.
E aqui talvez esteja uma das questões mais delicadas: quando a paixão política entra pela porta da frente, muitas vezes a fraternidade sai pela porta dos fundos.
Isso deveria provocar uma reflexão especialmente séria entre os cristãos. O Evangelho chama o discípulo a seguir Cristo, não a transformar políticos em objetos de devoção. Há algo profundamente contraditório quando alguém se mostra disposto a romper relações, agredir verbalmente ou relativizar princípios em nome de um candidato, mas encontra dificuldade para praticar a mansidão, a verdade, o perdão e o amor ao próximo ensinados pelo próprio Cristo.
Não se trata de exigir do cristão uma neutralidade diante de tudo. O silêncio também pode ser omissão. O próprio King não pregava uma passividade diante da injustiça; ao contrário, chamava os chamados “bons” a abandonar o medo e assumir responsabilidade. Em outro momento, afirmou que o progresso humano não acontece por inevitabilidade, mas pelo trabalho persistente de pessoas comprometidas.
A questão, portanto, não é simplesmente falar ou calar. É saber quando falar, como falar e por que falar. Talvez seja esse o ponto que mais nos falta. Porque há assuntos diante dos quais o silêncio é covardia. Mas existem outros em que o silêncio é prudência; e há ainda aqueles em que falar exige coragem justamente porque sabemos que seremos incompreendidos. Hoje, em determinados ambientes, qualquer opinião que contrarie a cartilha de um grupo é imediatamente utilizada para classificar quem falou como pertencente ao grupo adversário. E, a partir daí, a pessoa deixa de ser ouvida: passa a ser apenas etiquetada. É assim que se constrói uma sociedade na qual todos falam e poucos realmente conversam.
Até questões que deveriam merecer análise serena acabam capturadas pela lógica partidária. O debate sobre os efeitos sociais e familiares das apostas e das chamadas bets, por exemplo, pode ser examinado a partir de seus impactos econômicos, sociais, emocionais e morais. Entretanto, em ambientes polarizados, até uma preocupação dessa natureza pode ser interpretada como uma posição partidária. O tema deixa de ser avaliado pelo que produz na vida das pessoas e passa a ser julgado por quem aparentemente se beneficia ou se prejudica com determinada posição. É uma inversão perigosa.
E talvez seja por isso que o “silêncio apavorante dos bons” precise ser compreendido com alguma justiça. Há quem se cale porque não tem opinião. Há quem se cale por covardia. Há quem se cale por conveniência. Mas há também quem se cale porque percebeu que, numa sociedade em que toda palavra é imediatamente transformada em bandeira, qualquer tentativa de ponderação pode produzir mais calor do que luz. Ainda assim, o silêncio não pode ser o destino permanente dos que preservam algum senso de equilíbrio.
A sociedade precisa de vozes capazes de dizer sim quando for sim e não quando for não, independentemente de quem esteja de cada lado. Precisa de pessoas capazes de reconhecer uma virtude no adversário sem se sentirem traidoras de sua própria causa. Precisa de cristãos que consigam discordar sem odiar, defender princípios sem transformar pessoas em inimigos e participar da vida pública sem transformar a política em religião. Talvez uma das grandes tarefas de nosso tempo seja justamente recuperar essa capacidade.
O Brasil tem problemas maiores do que suas intermináveis guerras de opinião. Há reformas institucionais que precisam ser discutidas, questões sociais que não podem ser escondidas pelo barulho das redes, desafios econômicos que exigem responsabilidade e, também, uma Igreja que precisa olhar para si mesma com honestidade, perguntando se continua suficientemente próxima das Escrituras, de sua missão e do Evangelho que afirma anunciar. Nenhuma dessas questões será resolvida por gritos.
E talvez seja justamente aí que a antiga advertência de Martin Luther King volte a nos alcançar. O perigo não está somente nos que fazem barulho em defesa do erro. Está também naqueles que sabem que algo está errado, percebem o caminho da injustiça, reconhecem a degradação do debate — mas preferem não dizer nada. Porque, quando os bons se calam por tempo demais, os extremos passam a falar em nome de todos. E quando isso acontece, talvez a história não pergunte apenas quem gritou mais alto. Ela poderá perguntar também: onde estavam aqueles que poderiam ter falado?
(*) Ministro Presbiteriano e jornalista, douradense que militou no Rádio como Ézio Moreira.
