Valfrido Silva
O dinheiro vivo que não morre na urna acaba de ser apanhado antes de chegar a ela. E, desta vez, não estava sozinho, perdido no porta-malas de algum marinheiro eleitoral de primeira viagem. Veio acompanhado de santinhos, adesivos, nomes de pessoas, municípios de destino e um personagem com endereço político conhecido: José Antônio Pires de Souza, o popular Zé Bocão, ex-presidente da Câmara Municipal de Mundo Novo, assessor parlamentar e articulador da campanha à reeleição do deputado estadual Lídio Lopes em 13 municípios do Cone Sul. Lídio, por sua vez, não é um deputado qualquer. Além de cumprir mandato na Assembleia Legislativa, acumula o singular posto de primeiro-cavalheiro de Campo Grande, como marido da prefeita Adriane Lopes.
Segundo o boletim de ocorrência reproduzido pela imprensa, Zé Bocão foi abordado pela Polícia Militar na noite de quarta-feira, em Iguatemi, depois de uma denúncia de que um Volkswagen T-Cross trafegava em alta velocidade em direção a Japorã. O nervosismo do motorista levou os policiais a revistarem o veículo. Dentro dele encontraram R$ 127 mil em espécie, divididos em pacotes com cédulas de R$ 50 e R$ 100, além de milhares de santinhos, faixas e adesivos da campanha de Lídio Lopes. Parte do dinheiro estaria separada em envelopes identificados com nomes e municípios. Já não era apenas dinheiro vivo: tinha certidão de nascimento, roteiro de viagem e companhia eleitoral.
A ocorrência ganhou um ingrediente ainda mais comprometedor quando Zé Bocão, informado de que seria conduzido à delegacia, teria oferecido R$ 5 mil aos policiais para evitar a prisão — conforme algumas versões do boletim, R$ 5 mil a cada militar. O dinheiro destinado não se sabe exatamente a quê passou imediatamente a ter uma finalidade perfeitamente identificável: comprar a liberdade de quem o transportava. A oferta não funcionou. O ex-vereador acabou preso e entregue à Polícia Federal, que investigará a suspeita de corrupção eleitoral e as circunstâncias em que aquele valor circulava a três dias da votação.
O flagrante não autoriza concluir automaticamente que Lídio Lopes tenha determinado a entrega de dinheiro, comprado votos ou sequer soubesse da operação. Isso terá de ser esclarecido pela investigação, assegurado ao deputado o direito de apresentar sua versão e demonstrar a origem e a destinação legal dos recursos. Mas também seria um insulto à inteligência do eleitor tratar tudo como infeliz coincidência. O preso não é um desconhecido que encontrou meia dúzia de santinhos no primeiro comitê da esquina. É funcionário nomeado no gabinete do candidato, ex-vereador por cinco mandatos, ex-presidente da Câmara e apontado como responsável pela articulação política de Lídio no Cone Sul. O material eleitoral estava dentro do carro. O dinheiro, embalado. Os destinos, anotados.
O episódio reforça o que o contrapontoMS já havia advertido: dinheiro vivo apreendido na reta final não morre com o fechamento das urnas. Pode continuar respirando dentro de inquéritos, prestações de contas, ações eleitorais e processos capazes de alcançar até candidato diplomado e empossado. Dependendo das provas reunidas, um flagrante ocorrido antes da eleição pode produzir consequências muito depois da apuração. A urna encerra a votação; não arquiva boletim de ocorrência.
Politicamente, o caso também ultrapassa as fronteiras de Iguatemi, Japorã e Mundo Novo. Ao atingir um assessor direto de Lídio Lopes, bate à porta do primeiro-cavalheiro e, inevitavelmente, projeta sua sombra sobre o primeiro casal de Campo Grande. O deputado disputa a reeleição amparado por uma estrutura política relevante, enquanto Adriane comanda a maior prefeitura do Estado. Quanto maior a influência, maior será a obrigação de explicar por que um articulador regional de tamanha confiança viajava, na última semana da campanha, com R$ 127 mil, propaganda eleitoral e envelopes endereçados.
Zé Bocão tentou falar com dinheiro vivo. Desta vez, porém, quem respondeu foi a polícia. Agora caberá à Polícia Federal descobrir de onde saíram os R$ 127 mil, aonde chegariam, a quem se destinavam e o que os santinhos de Lídio Lopes faziam no meio dessa conversa. Porque dinheiro pode até não falar, como ensinava a antiga sabedoria. Mas, quando aparece empacotado ao lado de material de campanha, costuma entregar muita gente.
(*) Jornalista e editor do contrapontoMS, em colaboração humano–IA, sob revisão e edição final do autor.
