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terça-feira, julho 28, 2026

Tupã-Y, da estradinha da Missão, apagada, ao país que enterra sua própria memória

Entre poeira, missionários e um Toyota antigo, nasceu a voz indígena que confrontou o Papa e o Brasil. Sua mensagem continua atual — e urgente

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Lembro-me como se fosse hoje: o reverendo Orlando e sua esposa, a missionária Loide Bonfim Andrade, naquele jipão Toyota verde desbotado, subindo e descendo a estradinha de chão que ligava a avenida Presidente Vargas à Missão Caiuás. Era um caminho estreito, de terra batida, onde a poeira vermelha subia como se quisesse avisar à cidade que ali, entre dois mundos, passavam histórias que o Brasil um dia fingiria não saber contar.

Às vezes, eu via o Toyota passar carregando material da missão. Às vezes, voltava com cestos, mantimentos, livros. E quase sempre, na carroceria ou espremido no banco traseiro, ia um índio como tantos outros — aos olhos de quem nada conhecia além da superfície. Mas havia algo nele que prendia o olhar: a forma silenciosa como observava o caminho, o caderno no colo, o lápis guardado como quem guarda um amuleto, o vínculo quase inseparável com dona Loide. Era como se estivesse aprendendo outra língua e outro mundo ao mesmo tempo.

O nome dele: Marçal de Souza.

Naquele tempo, ele não era Tupã-Y. Era apenas Marçal — o Marçal enfermeiro do velho hospital Porta da Esperança, que aprendia inglês com a missionária, que buscava palavras novas para explicar dores antigas, que acompanhava Orlando e Loide como quem acompanha o destino. Eu, menino, não sabia medir importância. Mas hoje sei: ali, na poeira daquela estradinha, estava sendo moldada a voz que o mundo ouviria — e que o Brasil conseguiria calar.

E pensar que aquela estradinha de chão — a mesma que guardava o ranger do Toyota, o riso da missionária, o silêncio atento de Marçal — já não existe mais. Desapareceu “misteriosamente” durante a administração do prefeito Murilo Zauith, substituída por ruas largas, muros altos e o apetite insaciável da especulação imobiliária.

Apagaram o caminho.
Apagaram a paisagem.
Apagaram a poeira vermelha.

Mas não conseguiram apagar a história que passou por ali. Muito menos a consciência de quem a viu.

Às vezes, penso que Dourados fez com aquela estradinha o mesmo que o Brasil fez com a causa indígena: enterrou o incômodo e construiu por cima.

Anos mais tarde, em Manaus, 1980, aquele mesmo Marçal — agora Tupã-Y — ergueria sua pequena estatura diante do Papa João Paulo II. Não pediu bênção. Como publicado no texto anterior, aqui mesmo, pediu justiça. Não pediu atenção. Pediu memória. Não pediu privilégio. Pediu sobrevivência.

E disse, com a firmeza de quem fala por séculos, como lembrei no texto anterior: “O Brasil não foi descoberto, Santo Padre. O Brasil foi invadido e tomado dos indígenas.”

Naquele discurso histórico, ele denunciou invasões, expulsões, assassinatos — citando líderes mortos por lutarem por seu povo. Ele próprio seria assassinado três anos depois, em 1983, por fazer exatamente aquilo que denunciara ao Papa: defender o direito originário à terra, à dignidade, à existência.

Quarenta e cinco anos passaram. Nada mudou.

Os mesmos territórios espremidos. As mesmas fazendas em litígio eterno. As mesmas elites que “nunca aceitaram dividir terra e poder”. O mesmo Mato Grosso do Sul liderando estatísticas de assassinatos indígenas. A mesma Reserva de Dourados transbordando vidas e sofrimento.

E agora, como se o destino gostasse de ironias, o país assiste ao Congresso aprovar o Marco Temporal, dispositivo que tenta transformar em lei aquilo que sempre foi prática: negar que os povos originários estavam aqui antes de 1988.

No mesmo dia, o CNJ (Conselho Nacional de Justiça) recebe um relatório denunciando justamente as causas estruturais dessa violência — documento do qual participa outro douradense, Tiago Botelho, cuja coragem acadêmica ecoa, de certa forma, a coragem de Tupã-Y.

É impossível não perceber o fio que liga tudo isso: De um lado, o menino que via o Toyota subir a estradinha com um homem silencioso ao lado da missionária.

Do outro, o jornalista que hoje escreve sobre o país que não aprendeu a ouvir aquele homem — nem quando ele falou ao Papa, nem quando tombou, nem quando tantos outros tombaram depois dele.

O Brasil tem dificuldades com suas memórias — principalmente com as que lhe envergonham. Mas algumas vozes, como a de Tupã-Y, não se calam com o tempo. O
tempo, aliás, só as amplifica. disse ao Papa aquilo que muitos ainda não têm coragem de repetir: que o Brasil foi invadido, espoliado, comprimido; que suas lideranças eram assassinadas; que seu povo era tratado como intruso na própria terra.

Quarenta e cinco anos depois, com o Marco Temporal aprovado e os conflitos de terra se intensificando em Mato Grosso do Sul, a pergunta que fica é simples, dolorosa e necessária:

O que fizemos — nós, o país — com o grito de Tupã-Y?

A estradinha da Missão Caiuás continua lá na minha memória. A poeira também.
E, no eco dessas lembranças, talvez ainda seja possível ouvir um Toyota subindo devagar, carregando o homem que tentou avisar o Brasil inteiro antes que fosse tarde demais.

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