Valfrido Silva*
Às vésperas da eleição, o deputado federal bolsonarista Marcos Pollon conseguiu produzir aquele tipo de tiro que a bancada da bala conhece muito bem, mas prefere não exibir no estande: o disparo que acerta o próprio pé. Pollon destinou uma emenda Pix de R$ 1 milhão à Academia Nacional de Cultura, entidade posteriormente atingida pela Operação Make Up, que investiga desvios de emendas e lavagem de dinheiro relacionados ao filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro. Quando o cavalo começou a refugar, Pollon afirmou ter pedido o redirecionamento da verba ao Hospital de Amor de Barretos. O dinheiro não chegou ao hospital, a mudança de destino não apareceu nos registros oficiais consultados e a própria instituição acaba de negar que tenha recebido a emenda.
Convém ajustar a sela antes que alguém tente cavalgar a imprecisão. O R$ 1 milhão de Pollon não foi destinado diretamente ao Dark Horse, mas à mesma entidade alcançada pela investigação que cerca o filme. Formalmente, a verba financiaria a série Heróis Nacionais — Filhos do Brasil que não se rende. Também não existe, até agora, prova de que Pollon tenha desviado o dinheiro. O que existe é uma emenda colocada no mesmo curral político, uma explicação contraditada pelos registros públicos e o nome de uma das instituições de saúde mais respeitadas do país apresentado como destino salvador quando a história ficou eleitoralmente tóxica.
Primeiro, a assessoria de Pollon afirmou que o dinheiro não havia chegado nem saído dos cofres públicos. Os registros mostraram que ele saíra do Tesouro Nacional em dezembro de 2024 e permanecia numa conta do Governo de São Paulo. Depois, o deputado disse ter solicitado o redirecionamento ao Hospital de Amor. Até 9 de setembro, porém, os sistemas oficiais não apresentavam alteração de objeto, novo plano de trabalho ou devolução do recurso. Pode existir um pedido ainda não processado ou não registrado? Pode. Cabe a Pollon apresentar o protocolo, a data, o destinatário e o caminho administrativo percorrido. Quando há R$ 1 milhão de dinheiro público em jogo, palavra sem documento é apenas discurso inócuo.
O problema vai além da burocracia de uma emenda. Pollon tentou usar a respeitabilidade do Hospital de Amor como uma espécie de purificador moral da verba. Pronuncia-se o nome da instituição, acrescenta-se a palavra “amor” e espera-se que ninguém tenha coragem de fazer outra pergunta. O hospital, entretanto, não recebeu o dinheiro. Entrou na história apenas para receber a conta política de uma operação da qual não participou.
Destinar dinheiro público a um projeto de exaltação ideológica, deixando-o no entorno de uma entidade atingida por investigação relacionada a um filme sobre o chefe político do próprio grupo, já seria suficientemente grave. Invocar depois uma instituição de caridade para explicar o destino da verba torna o episódio ainda mais ofensivo. Na prática, o hospital aparece como pronto-socorro de uma versão eleitoralmente acidentada. O dinheiro não deu entrada, mas o nome da instituição foi colocado na ambulância.
Mato Grosso do Sul conhece bem a indecência de usar hospital como instrumento de esquemas. Na Operação Uragano, deflagrada em Dourados em 2010, dinheiro ligado à saúde apareceu na engrenagem de propinas e do mensalinho destinado à compra de apoio de vereadores ao então prefeito Ari Artuzi. Segundo a acusação, o secretário-adjunto de Saúde solicitava vantagem indevida para manter contratos e aditivos com o Hospital Evangélico, uma das instituições mais respeitadas do Estado. A contrapartida mensal teria chegado a R$ 50 mil. Dois acusados relacionados à gestão do hospital chegaram a ser condenados, em primeira instância, a penas superiores a 19 anos de prisão por corrupção.
Agora, dezesseis anos depois, a história reapareceu na Santa Casa de Campo Grande. A Operação Antidotum cumpriu seis mandados de prisão preventiva e 36 de busca e apreensão. Entre os presos estavam a presidente e integrantes da cúpula administrativa da instituição. Prisão preventiva não é condenação e todos possuem direito de defesa, mas a investigação aponta prejuízo inicial superior a R$ 4,9 milhões em contratos de digitalização de prontuários e negócios da operadora Santa Casa Saúde.
Nos casos do Hospital Evangélico e da Santa Casa, a suspeita é de que tenham retirado dinheiro das instituições. No episódio de Pollon, o hospital surge como justificativa para o dinheiro depois que a destinação original entrou no raio de uma investigação. A natureza jurídica dos fatos é diferente e precisa ser preservada. Moralmente, porém, as histórias se encontram num ponto perturbador: todas tratam a credibilidade de hospitais como patrimônio disponível para negócios que nada têm a ver com salvar vidas. Uns usam o hospital para tirar dinheiro. Outros usam o nome do hospital para tentar justificar uma situação embaraçosa.
Roubar de hospital é também roubar tempo de vida. Quem mete a mão no caixa de uma instituição de saúde leva o medicamento que poderia interromper a dor, o exame capaz de descobrir uma doença e os minutos que separam um paciente da alta, da sequela ou da morte. Usar a reputação de um hospital como escudo político também produz dano: desgasta a confiança construída por médicos, enfermeiros, funcionários, voluntários e doadores que não autorizaram ninguém a transformar solidariedade em álibi eleitoral.
E eleição é justamente a hora em que o buraco da bala volta a sangrar. Pollon e Rodolfo Nogueira, o “Gordinho do Bolsonaro”, disputam, orelha a orelha, a primeira vaga do PL para a Câmara Federal. Ambos buscam a reeleição, bebem na mesma fonte bolsonarista, cultivam o agronegócio, defendem trincheiras ideológicas semelhantes e precisam dividir um eleitorado que não aumenta só porque há dois candidatos reivindicando a bênção de Jair Bolsonaro. Pollon carrega a votação estadual de 2022 e a ligação com os CACs; Rodolfo finca sua principal base em Dourados e observa atentamente cada tropeço do companheiro de partido.
Nessa corrida, ninguém precisa derrubar o adversário. Basta continuar montado quando o outro cai. O desgaste de Pollon interessa diretamente a Rodolfo, porque cada dúvida aberta sobre a emenda, cada explicação sem documento e cada negativa do Hospital de Amor podem empurrar para o “Gordinho do Bolsonaro” uma parcela do eleitorado que os dois disputam quase voto a voto. Enquanto Pollon tenta explicar por que o dinheiro continuou em São Paulo, Rodolfo só precisa apertar as esporas e evitar cair no mesmo buraco.
O episódio reúne todos os elementos de uma tragédia política convertida em comédia eleitoral: um deputado da bancada da bala, uma emenda milionária, uma entidade investigada, um filme chamado Dark Horse, um hospital que não recebeu o dinheiro e dois candidatos correndo orelha a orelha. Pollon tentou sair do curral do cavalo escuro pela porta do Hospital de Amor. A instituição fechou a porteira.
O deputado disparou, o Dark Horse refugou e a bala pegou no próprio pé. No hospital, felizmente, não acertou. Quem agradece é Rodolfo Nogueira, que segue montado logo ao lado.
(*) jornalista e editor do contrapontoMS. Texto produzido com assistência de IA, sob revisão, edição final e responsabilidade do autor.
