Valfrido Silva*
Depois de construir sua popularidade nas ondas do rádio, onde o famoso “alô você” lhe rendeu mandatos de vereador, deputado estadual, deputado federal e, finalmente, prefeito da segunda maior cidade de Mato Grosso do Sul, o radialista Marçal Filho resolveu ampliar o alcance do bordão. Agora, sua voz não chega apenas pelos aparelhos ligados aos sábados e domingos, no programa que continua apresentando mesmo depois de assumir a Prefeitura. Vem de cima, enquanto uma versão digital do prefeito desce de paraquedas sobre escolas, unidades de saúde e outras obras municipais. Não é Marçal quem se arrisca no salto, claro. É a inteligência artificial, devidamente convocada para fazer aquilo que a agenda, a prudência e talvez o plano de saúde não recomendariam ao original.
Não se pode acusar Marçal de falta de criatividade. Nos primeiros meses da administração, ele surpreendeu os douradenses com uma espécie de pirotecnia braçal. Foi às ruas catar gravetos, varrer calçadas, pintar muros de creches e escolas e desentupir bocas de dragão. Em determinado momento, chegou a saltitar sobre uma delas para comprovar que a água, dali em diante, teria passagem livre — ou talvez para demonstrar que a Prefeitura finalmente possuía um prefeito disposto a enfrentar os problemas com os próprios pés. Cada aparição rendia fotografias, vídeos e a indispensável mensagem de que o homem estava trabalhando.
Agora, porém, o chão ficou pequeno. A inteligência artificial colocou Marçal dentro de um helicóptero, abriu a porta e o lançou sobre a cidade. Enquanto o paraquedas digital se abre, o prefeito manda seu “alô você” das alturas, aponta a obra lá embaixo e transforma a aterrissagem imaginária no pátio de uma escola ou de uma unidade de saúde em ato administrativo. A tecnologia resolveu até o problema da logística: o prefeito pode visitar vários bairros sem enfrentar congestionamentos, sem cair em buracos e, sobretudo, sem correr o risco de o vento levá-lo para o município vizinho.
Nessa pirotecnia virtual, Marçal sabe, como poucos, que administrar também é contar a história da administração. Uma obra silenciosa pode ser útil, mas rende pouco politicamente. A mesma obra, visitada por um prefeito que cai do céu, ganha enredo, imagem, trilha sonora e possibilidade de viralização. O cimento é o mesmo, a tinta custa igual e o atendimento continuará dependendo dos servidores. O que muda é a embalagem. Em tempos de redes sociais, já não basta cortar a fita: o gestor precisa aterrissar diante dela.
Talvez seja prudente, entretanto, que os programadores reservem desde já uma asa-delta digital para os dois anos que antecedem a tentativa de reeleição. A prioridade é enfrentar o cenário das vias urbanas que, até a sua chegada, mais parecia um queijo suíço — herança acumulada por administrações anteriores. É preciso fazer justiça: Marçal tem demonstrado empenho e realizado um tapa-buracos visivelmente mais abrangente e eficiente do que se viu em gestões passadas.
A situação do asfalto douradense é um drama antigo. O próprio quadrilátero central da cidade esteve em petição de miséria até o final do governo Reinaldo Azambuja. A área nobre só ganhou cara nova e padrão de qualidade com a chegada do governador Eduardo Riedel, que assumiu a bronca e reconstruiu o pavimento do centro. Para melhorar, Riedel agora promete levar o mesmo modelo de recapeamento para os bairros, começando justamente pelas vias que servem às linhas de ônibus.
Ainda assim, a malha viária dos bairros vem acumulando problemas desde a época do saudoso prefeito José Elias Moreira. São mais de quatro décadas de remendos, recapeamentos parciais, enxurradas e promessas. Há locais em que a base cedeu e já não adianta jogar massa por cima.
Eis o verdadeiro desafio da gestão marçalista. Catar gravetos, pintar paredes e desentupir bueiros garantem empatia e rendem bons vídeos. O paraquedas digital traz modernidade e espetáculo. Mas recuperar estruturalmente os trechos mais castigados exige obras pesadas, que começam debaixo da terra — onde não chegam as câmeras, os drones nem o avatar do prefeito.
Marçal conhece como ninguém o eleitorado e é um craque na arte da comunicação. Se outros prefeitos prestam contas com relatórios enfadonhos que ninguém lê, ele prefere pegar na vassoura ou despencar do céu. Pode-se discutir a pirotecnia, mas não a sua eficácia popular. A inteligência artificial pode colocar o prefeito nas alturas e fazê-lo pousar suavemente no pátio de uma escola. Só não inventaram ainda o algoritmo capaz de reconstruir a base de uma rua.
