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sexta-feira, outubro 23, 2026

Lula diz que o Brasil não cabe no quintal de ninguém, mas Trump chega à barranca do Paranazão, pelo lado paraguaio

Às vésperas da eleição, acordo americano para explorar energia de Itaipu no Paraguai dá novo significado ao discurso da soberania e revela uma disputa que ultrapassa as fronteiras brasileiras

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Valfrido Silva*

O presidente Lula foi à tribuna das Nações Unidas proclamar que o Brasil não cabe no quintal de ninguém. Donald Trump parece ter ouvido o recado e, sem precisar atravessar a cerca, encontrou um jeito de chegar à vizinhança: desembarcou diplomaticamente no Paraguai, onde empresas americanas acabam de acertar a instalação de um centro de inteligência artificial alimentado pela energia de Itaipu. A usina é binacional, construída e administrada por brasileiros e paraguaios, mas o Brasil sequer foi lembrado nos comunicados que celebraram o negócio. Não houve, pelo que se conhece, invasão de soberania ou apropriação da eletricidade brasileira. O Paraguai tem todo o direito de usar sua metade. A ironia está em outro lugar. Na velha piada sobre a construção de Itaipu, nossos vizinhos teriam entrado no empreendimento apenas com a barranca do rio Paraná. Meio século depois, é justamente naquela barranca que os americanos encontram uma oportunidade de ampliar sua presença econômica e tecnológica na América do Sul. E tudo isso acontece às vésperas de uma eleição presidencial brasileira em que a soberania virou palavra de ordem, enquanto as relações políticas de Trump com a família Bolsonaro acrescentam ao negócio uma dimensão que nenhuma nota empresarial consegue apagar.

Para compreender melhor essa história, vamos aproveitar o avião fretado que trouxe o saudoso Roberto Razuk para salvar a banca do Cassino Amambay, em Pedro Juan Caballero. Depois de desembarcar nosso velho jogador de pôquer, convocado às pressas para enfrentar adversários que haviam chegado de longe dispostos a limpar as mesas do cassino, embarcamos no voo de regresso para uma escala imaginária em Foz do Iguaçu. É ali, diante da monumental barragem de Itaipu, que começa outra partida, desta vez sem baralho, sem crupiê e com apostas infinitamente maiores. Os jogadores agora são governos, empresas de tecnologia e potências internacionais. As fichas são energia elétrica, inteligência artificial e influência política. E, como em toda mesa onde circulam interesses poderosos, convém prestar atenção não apenas em quem está jogando, mas também em quem ficou de fora.

Quando Brasil e Paraguai construíram Itaipu, nos tempos do generalíssimo Stroessner, a piada da barranca correu o país durante anos. Dizia-se que os brasileiros haviam entrado com o dinheiro, a engenharia, a tecnologia e o trabalho, enquanto os paraguaios contribuíram apenas com a margem do rio Paraná. Era uma dessas gracinhas que sobreviveriam à custa da arrogância dos maiores diante dos menores, como se geografia, soberania e território fossem detalhes desprezíveis numa obra binacional. Pois a barranca, que parecia valer tão pouco na anedota, acaba de mostrar quanto pode valer no mundo real. A americana Crusoe, especializada em infraestrutura para inteligência artificial, e a paraguaia Araico anunciaram uma parceria para instalar, nas proximidades de Itaipu, um grande centro de processamento de dados abastecido pela energia da hidrelétrica. O anúncio ocorreu durante a visita ao Paraguai de Christopher Landau, subsecretário de Estado americano. A velha piada perdeu a graça: a barranca continua no mesmo lugar, mas seu valor estratégico mudou extraordinariamente.

O empreendimento deverá começar a operar em 2027, com capacidade inicial anunciada de 106 megawatts para equipamentos de tecnologia da informação e possibilidade de expansão até 280 megawatts. É energia destinada a alimentar computadores que processarão informações para clientes dos Estados Unidos e da América Latina. O governo americano comemorou a iniciativa como uma oportunidade de investimento privado no Paraguai. Até aí, nada que mereça escândalo. O país vizinho tem direito à metade da energia gerada por Itaipu e pode procurar maneiras de utilizá-la para desenvolver sua economia, atrair empresas e gerar empregos. Aliás, seria estranho que continuasse eternamente satisfeito com o papel de fornecedor de eletricidade para o vizinho maior. O detalhe curioso é que, tanto no comunicado americano quanto no anúncio empresarial, o Brasil, coproprietário da usina, simplesmente desapareceu da fotografia. Não se trata de exigir que Brasília autorize o Paraguai a exercer seus direitos. Trata-se de observar como a diplomacia também se manifesta pelo que escolhe não mencionar.

E a história ganha um tempero particularmente brasileiro quando lembramos que Itaipu não se limita a produzir eletricidade. A binacional também financia empreendimentos de interesse público, inclusive hospitais. Um deles fica em Sidrolândia, Mato Grosso do Sul, onde a reforma do Hospital Dona Elmíria Silvério Barbosa recebeu aproximadamente R$ 8,58 milhões da empresa. A obra passou a figurar no contexto de investigações sobre suspeitas de superfaturamento, desvio de recursos e pagamentos indevidos envolvendo agentes públicos e particulares. É indispensável registrar que investigação não é condenação e que a própria Itaipu informou não ter identificado, nas verificações realizadas até então, irregularidades financeiras nos recursos repassados. Mesmo com essas ressalvas, o episódio oferece um contraste incômodo: enquanto a energia da binacional desperta o interesse de gigantes tecnológicos estrangeiros, o dinheiro aplicado em serviços essenciais aqui dentro exige vigilância permanente para que chegue integralmente ao destino prometido. De um lado, computadores capazes de processar volumes inimagináveis de informações. Do outro, a velha necessidade de conferir notas fiscais, contratos e transferências bancárias.

Mas seria ingenuidade imaginar que o governo Trump descobriu Itaipu apenas porque alguém lhe apresentou uma conta de luz atraente. A reportagem de O Globo ouviu especialistas que situam o empreendimento num movimento mais amplo de aproximação americana com o Paraguai. Leonardo Paz, pesquisador da Fundação Getulio Vargas, chamou o conjunto de iniciativas de uma espécie de “cartela do bingo” dos Estados Unidos para a América Latina: energia, minerais estratégicos, combate ao narcotráfico, cooperação militar e segurança. No mesmo movimento diplomático apareceram entendimentos envolvendo urânio e tecnologia nuclear. A interpretação geopolítica é que Washington procura ampliar sua presença numa região onde a China também disputa mercados, infraestrutura e influência. Isso não transforma automaticamente cada investimento americano numa operação clandestina, mas impede que seja examinado apenas como uma transação comercial entre duas empresas. A inteligência artificial, afinal, não vive de abstrações: precisa de energia, território, equipamentos, redes de comunicação e decisões políticas.

É nesse ponto que a escala em Foz do Iguaçu se aproxima do calendário eleitoral brasileiro. Faltam dois dias para a votação que decidirá a Presidência da República entre Lula e Nantes. Trump já declarou acompanhar de perto a eleição brasileira e mantém uma relação política de proximidade com a família Bolsonaro, num período marcado também por tensões comerciais e diplomáticas entre Washington e Brasília. Não há prova de que o acordo energético no Paraguai tenha sido concebido para interferir na eleição brasileira, e seria irresponsável afirmar isso. Mas seria igualmente ingênuo ignorar que movimentos de influência regional adquirem significado político especial quando ocorrem às vésperas de uma escolha presidencial num país do tamanho do Brasil. O sinal amarelo não está na existência do investimento, que pode ser legítimo e vantajoso para os paraguaios. Está na necessidade de compreender como interesses externos se relacionam com as decisões soberanas que os brasileiros estão prestes a tomar. Defender a soberania, nesse cenário, exige mais do que repeti-la nos palanques.

Há ainda uma pergunta que nenhum entusiasmo diplomático resolveu: quanto custará a energia fornecida ao empreendimento e quais serão as condições efetivas do contrato? O professor Edmar Almeida, da PUC-Rio, ouvido pelo jornal O Globo, observa que o preço é decisivo para avaliar se o Paraguai fará um bom negócio. Também pondera que o projeto, pelo porte inicialmente anunciado, não representa ameaça relevante ao abastecimento brasileiro. São observações importantes para não transformar uma discussão geopolítica numa fantasia de que alguém está levando embora, debaixo do braço, a metade brasileira de Itaipu. O Paraguai não está vendendo uma barranca, mas tentando agregar valor à sua energia. E o Brasil, em vez de olhar apenas para o que o vizinho faz, poderia perguntar a si próprio se está aproveitando com a mesma inteligência as oportunidades oferecidas por seus recursos naturais e por sua infraestrutura. Afinal, soberania não se mede apenas pela capacidade de dizer não às potências estrangeiras, mas também pela competência de decidir o próprio futuro.

Quando nosso avião imaginário finalmente decolar de Foz do Iguaçu, ficará uma lembrança do nosso já saudoso Razuk. Jogador experiente, ele sabia que uma partida de pôquer não se ganha apenas olhando para as próprias cartas. É preciso observar quem se senta à mesa, quem distribui as fichas e quem pretende levar o dinheiro embora. Na política internacional, a lição continua valendo. O Paraguai descobriu que sua barranca pode valer uma fortuna, os americanos enxergaram nela uma oportunidade estratégica e o Brasil tem o desafio de defender seus interesses sem negar os direitos do vizinho. Lula diz que o país não cabe no quintal de ninguém. Pode estar certo. Mas convém não esquecer que, enquanto discutimos o tamanho do nosso quintal, Trump já está fazendo negócios do outro lado da cerca.

(*) jornalista e editor do contrapontoMS, em colaboração humano–IA, sob revisão e edição final do autor.

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