Valfrido Silva
O porta-malas de Zé Bocão amanheceu nesta sexta-feira valendo mais que a campanha inteira de Lídio Lopes. Os R$ 127 mil apreendidos pela Polícia Militar com o ex-presidente da Câmara de Mundo Novo superam em 65% os R$ 76,7 mil que o deputado estadual e primeiro-cavalheiro de Campo Grande havia declarado arrecadar à Justiça Eleitoral. A matemática, que já não parecia boa dentro de um automóvel carregado de santinhos, envelopes identificados e dinheiro vivo, ficou ainda pior quando colocada ao lado da prestação de contas do candidato. Não era apenas muito dinheiro. Era mais dinheiro do que oficialmente existia na campanha.
A comparação não prova, sozinha, que os recursos pertenciam a Lídio, que seriam utilizados para comprar votos ou que o deputado soubesse de seu transporte. Essas respostas terão de ser encontradas pela Polícia Federal, a quem Zé Bocão foi entregue depois do flagrante em Iguatemi. Mas os números e as circunstâncias tornam inadiável uma explicação. O preso é assessor nomeado no gabinete de Lídio, articulador político do deputado em 13 municípios do Cone Sul e declarou aos policiais que trabalhava na campanha. Segundo o boletim de ocorrência, saiu de Campo Grande levando dinheiro e material eleitoral para Mundo Novo. Não foi um motorista casual apanhado com um santinho esquecido no porta-luvas.
A aritmética oferece outras comparações incômodas. Os R$ 127 mil encontrados com o assessor equivalem a aproximadamente 85% dos R$ 148,9 mil em despesas já declaradas pela campanha de Lídio e superam em 161% os R$ 48,5 mil registrados como gastos com militância e mobilização de rua. Em outras palavras, Zé Bocão transportava sozinho, dentro de um carro, duas vezes e meia o que o candidato informou ter destinado a toda a sua tropa eleitoral. Talvez exista uma origem lícita, documentalmente comprovável e inteiramente desvinculada da campanha. Se existe, chegou a hora de apresentá-la. Dinheiro vivo pode ser inocente; silêncio prolongado dificilmente ajuda a demonstrar isso.
E a conta não estaciona apenas diante do gabinete de Lídio Lopes. Bate inevitavelmente à porta da Prefeitura de Campo Grande, onde governa sua mulher, Adriane Lopes. O casal ocupa hoje uma das estruturas políticas mais poderosas de Mato Grosso do Sul: ela administra a Capital; ele exerce o quarto mandato na Assembleia, preside o Avante no Estado e tenta renovar a cadeira. Lídio não é apenas o marido da prefeita, assim como Adriane não é apenas a mulher do deputado. Os dois constroem juntos um projeto político, dividem palanques, alianças, apoiadores e os benefícios de uma máquina de poder que alcança a maior cidade do Estado.
Por isso, o flagrante ganha dimensão ainda maior num momento em que Adriane conduz aquela que já pode ser considerada a administração mais catastrófica da história da Capital Morena. Sua gestão acumulou crises, desgaste político, conflitos com a Câmara e medidas impopulares, sem conseguir entregar o prometido e, principalmente, o que a população exige. Enquanto Campo Grande tropeça nos problemas urbanos e administrativos, o marido percorre o Estado em busca da reeleição. Agora, um de seus principais articuladores aparece com R$ 127 mil, santinhos da campanha e uma tentativa, segundo a polícia, de oferecer dinheiro aos próprios policiais para escapar da delegacia.
O episódio também não encontra terreno virgem na biografia eleitoral do primeiro casal. A Polícia Federal deflagrou, em junho, a Operação Suffragium para investigar suspeitas de compra sistemática de votos na campanha que reelegeu Adriane em 2024. A prefeita declarou ter recebido a operação com surpresa e tranquilidade, afirmou que os fatos já haviam sido analisados pela Justiça e ressaltou que a investigação não envolvia sua atual administração. Agora, porém, surge outro caso de suspeita de corrupção eleitoral, desta vez envolvendo diretamente um assessor do marido, dinheiro vivo e propaganda de sua candidatura. São investigações distintas e nenhuma autoriza condenação antecipada, mas a repetição do tema transforma coincidência em sério problema político.
Há ainda uma ironia institucional difícil de ignorar. Lídio e Adriane apoiam a reeleição de Eduardo Riedel, cujo governo comanda a Polícia Militar responsável pelo flagrante. No debate da TV Morena, o governador exaltou a eficiência de suas forças de segurança e defendeu que as apurações prossigam independentemente de quem seja alcançado. Poucas horas depois, a PM parou o automóvel de um companheiro de palanque, abriu o porta-malas e mostrou que não havia consultado a fotografia da coligação antes de contar as cédulas. É o velho “doela a quem doela”, de Fernando Collor de Melo, aplicado agora com surpreendente literalidade.
Resta a Lídio explicar a conta que não fecha: como seu assessor atravessava o Cone Sul com R$ 127 mil quando toda a campanha declarara arrecadar apenas R$ 76,7 mil? E resta a Adriane compreender que, quando se governa em casal, o bônus político circula de mãos dadas, mas o desgaste também chega acompanhado. Zé Bocão levava no carro mais dinheiro do que existia oficialmente na campanha do primeiro-cavalheiro. O porta-malas foi aberto pela polícia. Agora, chegou a vez de o primeiro casal abrir as contas.
(*) Jornalista e editor do contrapontoMS, em colaboração humano–IA, sob revisão e edição final do autor.
