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sexta-feira, outubro 2, 2026

Vander encosta no pelotão bolsonarista e espera, ainda, o sobrevoo KC-390 de Lula com seus “santinhos”

Ranking mostra o petista a quatro pontos de Contar no primeiro voto; campanha até agora silenciosa emerge com apoio de prefeitos, sindicalistas, movimentos sociais e parte do agronegócio

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Valfrido Silva

O deputado federal Vander Loubet passou quase toda a campanha voando abaixo do radar, mas reapareceu na reta final “perigosamente” próximo do pelotão bolsonarista que parecia ter reservado antecipadamente as duas cadeiras de Mato Grosso do Sul no Senado. A pesquisa Ranking divulgada nesta quinta-feira mostra Reinaldo Azambuja com 30% das intenções no primeiro voto, Capitão Contar com 24% e Vander com 20%. Na espontânea, quando o entrevistador não apresenta os nomes dos candidatos, a distância fica ainda menor: Azambuja tem 21%, Contar 18% e o petista 15%. A três dias da eleição, o candidato que parecia estacionado no pátio já pode ouvir o barulho dos motores à sua frente.

A vantagem de Azambuja permanece confortável. O ex-governador lidera também na segunda escolha, com 30%, seguido por Contar, com 29%. Nesse recorte, Vander aparece com 17%, ainda distante da segunda cadeira. Mas o primeiro voto e a pesquisa espontânea revelam uma movimentação que não pode ser desprezada. Contar continua na posição de favorito para acompanhar Azambuja ao Senado, porém já não viaja sozinho pela pista. Tem agora um petista no retrovisor e precisa torcer para que o prometido KC-390 de Lula não sobrevoe Mato Grosso do Sul carregado de “santinhos” na undécima hora.

O crescimento de Vander surpreende apenas quem procurou sua campanha nos palanques mais barulhentos. Ao contrário dos adversários do PL, embalados pela força do bolsonarismo no Estado, o deputado percorreu uma rota menos visível, ancorada sobretudo no trabalho construído ao longo dos mandatos e na parceria com prefeitos. Vander conhece as prefeituras, os gabinetes, os sindicatos e as lideranças do interior como quem conhece as pistas de pouso de uma longa carreira parlamentar. Em vez de disputar diariamente a manchete, trabalhou sobre uma rede formada durante anos por emendas, convênios, articulações em Brasília e recursos destinados aos municípios.

É a velha política municipalista, frequentemente criticada nos discursos, mas disputada com ferocidade quando chega a eleição. Prefeito pode não transferir integralmente seus votos, mas abre portas, apresenta lideranças, reúne vereadores e lembra obras que o eleitor talvez não associasse ao parlamentar responsável pelo dinheiro. Vander fez dessa capilaridade a espinha dorsal de uma campanha aparentemente escondida. Enquanto Azambuja se agarrava à garupa de Riedel e Contar explorava sua identificação direta com Jair e Flávio Bolsonaro, o petista trabalhava nos subterrâneos da política estadual.

A estrutura tradicional soma-se a um eleitorado historicamente ligado a Vander: sindicalistas das mais diferentes categorias, trabalhadores sem-terra, populações indígenas, comunidades quilombolas e setores organizados da esquerda. Não é uma base desprezível, especialmente numa eleição de dois votos, em que muita gente escolhe um nome por convicção ideológica e deixa o outro para compor com relações locais, compromissos municipais ou afinidades pessoais.

O componente mais novo apareceu justamente onde menos se esperava. Na reta final, Vander passou a receber apoio de uma ala considerável do agronegócio, especialmente entre produtores rurais de Dourados. Não significa que o agro sul-mato-grossense tenha se convertido ao petismo nem que Lula tenha deixado de enfrentar forte resistência no setor. Significa apenas que interesses regionais, relações construídas e reconhecimento ao trabalho parlamentar às vezes pesam mais que a cartilha ideológica. Produtor rural também precisa de estrada, energia, crédito, armazenagem, logística e interlocução em Brasília. Na hora de escolher dois senadores, até porteiras consideradas ideologicamente fechadas podem deixar uma fresta aberta.

É aí que o eventual sobrevoo de Lula ganha importância. Vander precisa transformar sua base silenciosa em voto efetivo e convencer o eleitor lulista de que o Senado é parte decisiva do projeto nacional. Precisa também impedir que o segundo voto de seus apoiadores seja automaticamente entregue a um dos dois candidatos do PL. Se o presidente entrar pessoalmente na reta final, como prometido, poderá oferecer ao deputado aquilo que lhe faltou durante boa parte da campanha: visibilidade, identidade nacional e um chamado mais direto à militância.

A missão continua difícil. A mesma Ranking que coloca Vander a quatro pontos de Contar no primeiro voto mostra uma distância de 12 pontos no segundo. Azambuja e Contar possuem a vantagem de compartilhar a preferência majoritariamente conservadora do Estado e podem formar uma dobradinha natural. O risco para eles está justamente no excesso de confiança: dois candidatos disputando o mesmo eleitor, enquanto Vander procura consolidar sozinho o campo lulista e avançar sobre setores que não aparecem usando boné vermelho.

O KC-390 ainda não pousou, mas Vander já saiu do hangar. A campanha escondida apareceu nos números, o agro abriu uma inesperada pista auxiliar e Contar passou a enxergar no retrovisor alguém que julgava ter deixado para trás. Se os “santinhos” de Lula chegarem a tempo e encontrarem vento favorável, a eleição que parecia uma tranquila operação de transporte do PL pode terminar exigindo paraquedas.

(*) Jornalista e editor do contrapontoMS, em colaboração humano–IA, sob revisão e edição final do autor.

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