26.9 C
Dourados
sexta-feira, outubro 2, 2026

Cavala ameaça expor intimidade de políticos na reta final da campanha

Em vídeo com propaganda eleitoral, Isa Marcondes afirma ter gravações de supostos ex-clientes e anuncia retaliação caso continuem divulgando imagens dela

- Publicidade -

Valfrido Silva*

Tinha que ser ela, a Cavala. Quando todo mundo achava que os palanques estavam desmontados, eis que vereadora de Dourados e candidata a deputada federal Isa Marcondes, trouxe à cena, nesta reta final da campanha, um recado que dispensa pesquisa eleitoral para produzir desconforto: se continuarem divulgando vídeos seus, ela promete divulgar material daqueles que apresenta como antigos clientes. No Instagram, com seu número de candidatura estampado na tela, a parlamentar menciona pessoas da política, afirma possuir registros de encontros privados e dirige a advertência também às mulheres de políticos. O bordão de acabar com a “zona” acaba de ganhar um capítulo em que a intimidade vira instrumento de pressão.

É preciso estabelecer desde o começo o que o vídeo permite afirmar. Isa faz as declarações e anuncia a retaliação. Isso não comprova a existência das gravações, a identidade dos supostos clientes nem as circunstâncias dos encontros mencionados. Ela não apresenta, nesse material, provas que permitam conferir suas alegações. Tampouco elementos para determinar quais imagens suas estariam sendo divulgadas, por quem ou em que contexto. O fato disponível para análise é o pronunciamento de uma candidata que associa sua propaganda eleitoral à possibilidade de expor a vida privada de outras pessoas.

Ao longo do vídeo, Isa invoca ética profissional, diz ter preservado a intimidade de quem teria atendido e acusa de falsos moralistas aqueles a quem dirige o recado. Mas condiciona a manutenção dessa reserva ao comportamento dos destinatários. Se continuarem divulgando seus vídeos, anuncia que divulgará os deles. “Eu acabo com vocês”, diz ela, enfaticamente. A mensagem muda de natureza nesse ponto: a defesa da própria privacidade passa a conviver com o anúncio de uma exposição retaliatória. E o eleitor, chamado a escolher uma representante no Congresso, recebe uma advertência sobre aquilo que ela diz guardar no celular.

Nenhum passado pessoal retira de Isa o direito de exercer um mandato, disputar uma eleição ou exigir respeito. A eventual divulgação abusiva de sua intimidade merece ser apurada, não celebrada como munição de campanha. O mesmo princípio vale para os outros. Privacidade não deveria funcionar como um acordo de silêncio que pode ser rompido para atingir adversários, seus familiares ou quem a candidata considere responsável por atacá-la. Há uma contradição evidente entre reivindicar proteção e oferecer a exposição alheia como resposta.

Na boca da urna, Isa enumera supostos clientes que incluiriam marido de vereadora, secretários, governador, ministros e até presidente. Não esclarece de qual esfera seriam os secretários nem se “presidente” designa o chefe de uma empresa, de uma entidade ou da República. Nenhum nome, nenhuma prova: os cargos lançados ao ar deixam a imaginação do público completar o elenco. Com os olhos arregalados, gestos incisivos e uma fala marcada pela irritação, a candidata transforma o recado numa cena de confronto. Estratégia para arrebentar a boca do balão na última hora ou reação de quem teme ver a vaca ir para o brejo? O vídeo não permite escolher a resposta, muito menos antecipar seu destino nas urnas. Permite, porém, avaliar o recurso escolhido para disputar a atenção do eleitor: anunciar que pode expor aqueles que acusa de expô-la. Quem promete acabar com a zona de Brasília termina a campanha convidando o público a espiar pelo buraco da fechadura.

(*) jornalista e editor do contrapontoMS, em colaboração humano–IA, sob revisão e edição final do autor.

- Publicidade -
- Publicidade -
- Publicidade -

Últimas Notícias

Últimas Notícias

- Publicidade-