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sexta-feira, outubro 2, 2026

Lídio pode antecipar ressurreição politica de Bonatto

Ex-vereador aparece entre os mais competitivos da chapa de Lídio Lopes e pode transformar um passado marcado pelo maior escândalo político de Dourados em surpreendente retorno à vida parlamentar

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Valfrido Silva

O deputado Lídio Lopes pode acabar fazendo por Aurélio Bonatto aquilo que nem o tempo, nem o esquecimento e nem o espólio político de Neno Razuk conseguiram fazer completamente: facilitar sua ressurreição política. O ex-vereador, ex-uragano e personagem da sapatada mais célebre da história de Dourados aparece entre os candidatos mais competitivos do Avante, justamente a chapa cujo principal puxador entrou na reta final da campanha carregando um problema de R$ 127 mil. Depois da prisão de Zé Bocão, assessor e coordenador regional de Lídio flagrado com dinheiro vivo e material eleitoral, Bonatto deixou de ser apenas um candidato tentando voltar. Passou a ser também um possível beneficiário futuro da encrenca alheia.

É cedo, muito cedo, para distribuir mandatos, suplências e cassações. Lídio precisa primeiro ser eleito; Bonatto, confirmar sua posição dentro da chapa; e a investigação da Polícia Federal, estabelecer se o dinheiro apreendido possui alguma relação ilegal com a campanha. Mas a política gosta de trabalhar com hipóteses antes que a Justiça consiga trabalhar com certezas. Se Lídio conquistar a cadeira, Bonatto ficar na primeira suplência e o episódio de Zé Bocão produzir mais adiante alguma consequência capaz de afastar o deputado, Dourados poderá ganhar um representante na Assembleia por uma dessas voltas que somente a vida pública consegue oferecer: um escândalo novo abrindo caminho para a reabilitação de um personagem marcado pelo maior escândalo político da história do Mato Grosso do Sul.

Assim como Reinaldo Azambuja, Aurélio Bonatto talvez tenha bons motivos para procurar uma alfaiataria já na segunda-feira. Não para ajustar o terno herdado de Neno Razuk, de quem foi chefe de gabinete. Esse provavelmente não lhe serve mais. Bonatto precisará encomendar um figurino próprio para a tentativa de reabilitação política mais improvável desta eleição: sair das páginas da Operação Uragano, atravessar uma sapatada histórica, uma renúncia e uma condenação em primeira instância para reaparecer com chances de chegar à Assembleia Legislativa.

A última pesquisa do Instituto Ranking Brasil Inteligência, realizada entre 27 e 30 de setembro, coloca Bonatto com 1,8% das citações espontâneas dentro do Avante. Está empatado com Rogério Rohr e Ruy Costa na segunda posição da chapa e apenas quatro décimos atrás do deputado Lídio Lopes, que aparece com 2,2%. Os números individuais são menores que a margem de erro de 2,2 pontos percentuais e não permitem distribuir cadeiras antecipadamente. Servem, porém, para revelar que Bonatto não está apenas fazendo figuração nem aproveitando a campanha para rever antigos eleitores. Está no jogo.

O episódio que colocou Lídio no centro dessa hipótese tem ingredientes pouco discretos. Zé Bocão, assessor de Lídio e coordenador de sua campanha no Cone Sul, foi preso com R$ 127 mil em espécie, material eleitoral e listas com nomes e municípios. Segundo o registro policial, ainda teria oferecido R$ 5 mil aos militares durante a abordagem. O caso foi encaminhado à Polícia Federal e está sob investigação. Lídio não foi flagrado com o dinheiro, e a responsabilidade pelo episódio precisará ser apurada sem a comodidade da condenação antecipada. Mas, em campanha eleitoral, R$ 127 mil viajando ao lado de santinhos dificilmente serão confundidos com dinheiro para comprar picolé.

Bonatto não chega a essa história como novato. Em 2010, era vereador quando a Operação Uragano desmantelou o esquema de corrupção instalado na Prefeitura e na Câmara de Dourados. Foi indiciado pela Polícia Federal e acabou incorporado a uma das cenas mais emblemáticas daquele período. Na primeira sessão legislativa depois da operação, diante de uma multidão indignada, tentou iniciar os trabalhos e recebeu na testa um sapato arremessado do plenário. A sapatada percorreu o país e transformou em imagem aquilo que a cidade sentia: a Justiça poderia demorar, mas a sola popular havia decidido antecipar o julgamento.

Ele renunciou ao mandato antes de ser submetido ao processo de cassação. Em 2021, quase onze anos depois da Uragano, recebeu em primeira instância a maior pena entre oito réus condenados naquele processo: quase 18 anos de prisão por corrupção passiva e associação criminosa. A decisão não o retirou automaticamente da política, e sua candidatura em 2026 está deferida. Na urna, portanto, ele não concorre como inelegível nem como clandestino. Concorre como candidato regularmente registrado e como personagem de uma cidade que nem sempre demonstra possuir memória proporcional ao tamanho de seus escândalos.

Depois da Câmara, reconstruiu o caminho por diferentes funções públicas e políticas. Passou pelo escritório regional do Ibama, coordenou projetos sociais e tornou-se chefe de gabinete de Neno Razuk. Ali encontrou outro espólio eleitoral, outra estrutura e outra história atravessada pelo jogo do bicho e pela Justiça. Neno perdeu o mandato após a retotalização dos votos de 2022 e teve a prisão decretada para cumprir pena superior a 15 anos por organização criminosa, roubo e exploração de jogo de azar. Bonatto tenta herdar seus votos sem carregar oficialmente suas condenações — operação sucessória que exige muito mais cuidado que simplesmente trocar o nome no santinho.

Talvez por isso o terno de Neno não lhe sirva. Bonatto possui medidas próprias, cicatrizes próprias e até um calçado célebre em sua biografia. Se for eleito diretamente, poderá apresentar o resultado como absolvição popular, embora urna não seja tribunal e voto não reforme sentença. Se ficar na suplência, passará a acompanhar com interesse ainda maior os desdobramentos do caso Lídio Lopes. Em qualquer hipótese, já conseguiu algo relevante: voltar ao centro da conversa política de Dourados dezesseis anos depois de ter saído da Câmara sob o impacto de uma sapatada.

A política brasileira é pródiga em segundas oportunidades. Algumas são conquistadas pelo arrependimento, outras pelo esquecimento e muitas pela simples passagem do tempo. No domingo, o eleitor decidirá qual delas pretende oferecer a Aurélio Bonatto. Se a pesquisa estiver captando corretamente o movimento, o sapato da Uragano pode finalmente sair de cena — e dar lugar a um terno novo para a Assembleia.

(*) jornalista e editor do contrapontoMS, em colaboração humano–IA, sob revisão e edição final do autor.

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