Valfrido Silva
A zebra mal acabou de passar pela porteira e o contrapontoMS já corre o risco de ter de voltar à invernada. Juliano Ferro, o autointitulado prefeito mais louco do Brasil, forneceu a imagem perfeita para esta eleição ao anunciar que seu primeiro voto para o Senado será de Reinaldo Azambuja e o segundo, contrariando a dobradinha defendida pelo próprio grupo governista, irá para Vander Loubet, do PT. Foi o bastante para perguntarmos se o feitiço do segundo voto estaria começando a virar contra o feiticeiro do primeiro. Pois talvez tenhamos olhado apenas para a porteira e esquecido de contar os bois. Porque existe uma boiada eleitoral razoável procurando destino desde que Nelsinho Trad desistiu de disputar a própria reeleição e acabou acomodado como primeiro suplente na chapa de Azambuja. E ninguém deveria cometer o erro elementar de imaginar que eleitor acompanha candidato como bezerro acompanha vaca.
Antes, porém, de soltar a boiada, convém enfrentar uma controvérsia que está no centro dessa história: quem pode assegurar que os eleitores de Nelsinho Trad irão marchar encabrestados para Reinaldo Azambuja apenas porque o senador desistiu da candidatura própria e aceitou ser seu primeiro suplente? Nelsinho fez uma escolha política. O eleitor não assinou o acordo. Na cabine, votará no titular, não no suplente, e nada obriga quem pretendia reelegê-lo a transferir sua preferência para Azambuja — muito menos a entregar automaticamente o outro voto a Capitão Contar. Eleitor não é patrimônio que se transfere por escritura e voto não acompanha político como boi marcado a ferro. Parte desse eleitorado pode perfeitamente seguir Nelsinho e votar em Azambuja; outra pode escolher Contar; outra pode procurar Vander, Soraya Thronicke ou qualquer outro nome da disputa. E é justamente nessa exceção à matemática sonhada pelos caciques que pode estar escondida uma mudança importante no tabuleiro.
Aliás, pau que bate em Chico bate em Francisco. Se o grupo de Azambuja acredita que pode receber parte dos votos deixados órfãos pela desistência de Nelsinho, precisa admitir que os mesmos eleitores conservam absoluta liberdade para entregar o segundo voto a quem bem entenderem. A porteira que serve para trazer voto para dentro também serve para deixá-lo escapar. Juliano Ferro tornou essa obviedade eleitoral visível ao separar publicamente suas escolhas: Azambuja no primeiro voto e Vander no segundo. Se um aliado ostensivo do establishment consegue fazer isso sem considerar que esteja renegando sua preferência principal, por que haveria de se supor que milhares de eleitores agirão de maneira diferente apenas porque alguém bateu na mesa e decretou uma dobradinha?
Antes de sair da disputa, Nelsinho não era figurante. Pesquisa Fiems/Instituto Opinião divulgada no fim de maio lhe atribuía 26,1% na soma dos dois votos para senador, atrás de Azambuja, com 38,7%, e Contar, com 33,7%. Outro levantamento, do Ranking Brasil Inteligência, realizado entre o fim de junho e o início de julho, chegou a mostrar Nelsinho com 19,4% no primeiro voto e 19,2% no segundo, muito próximo de Azambuja e Contar; em cenários sem Contar, Nelsinho aparecia inclusive liderando algumas simulações. São pesquisas diferentes e não se deve misturá-las como se fossem uma série matemática única, mas todas demonstravam algo bastante simples: Nelsinho possuía eleitorado próprio. Gente que pretendia escrever o nome dele na urna não desapareceu porque o candidato mudou de posição na fotografia oficial. Continua existindo, continuará dispondo de dois votos para senador e, sobretudo, continuará sendo dona deles.
Talvez esteja aí a pequena “praga de Nelsinho”, com toda licença para o exagero metafórico. Ao trocar uma candidatura competitiva pela suplência de Azambuja, resolveu-se o problema político de uma chapa, mas criou-se outro na urna: quem herdará os eleitores que pretendiam votar nele? A resposta confortável para o establishment seria Azambuja e, principalmente, Capitão Contar. O primeiro porque levou Nelsinho para a própria chapa; o segundo porque a estratégia do grupo pretende transformar Azambuja-Contar numa dobradinha quase compulsória. Só que eleição não respeita conforto de cacique. Existe eleitor de Nelsinho que pode acompanhá-lo e votar em Azambuja. Existe outro que pode preferir Contar. Mas existe também aquele que não votaria em Azambuja de jeito nenhum, independentemente de Nelsinho ter ido parar na suplência. E pode haver até quem estivesse com Nelsinho justamente porque não queria nem Azambuja nem Contar.
A aritmética fica ainda mais interessante porque o próprio eleitorado já vinha dando sinais de que primeiro e segundo votos obedecem a lógicas diferentes. Pesquisa Ipems de junho, que perguntou separadamente pelas duas escolhas, encontrou Contar liderando o primeiro voto com 26,94%, seguido de Azambuja com 24,04%; Nelsinho tinha 15,16%. No segundo voto, entretanto, a ordem mudava: Azambuja aparecia com 20,48%, Nelsinho com 16,98% e Contar com 13,42%. Ou seja, antes mesmo da atual confusão, a pesquisa já captava combinações diferentes entre a primeira e a segunda escolha. É exatamente por isso que qualquer cacique deveria pensar duas vezes antes de bater na mesa e decretar que quem vota em A obrigatoriamente votará também em B. A urna oferece duas teclas; não oferece cabresto entre elas.
E aqui começa o perigo para Capitão Contar. Azambuja pode continuar forte, absorver parte do eleitorado de Nelsinho e ainda assim assistir ao segundo voto escapar por todos os lados. Um eleitor pode escolher Azambuja e Vander. Outro, Azambuja e Soraya. Outro pode rejeitar Azambuja e combinar Contar com Vander. Um bolsonarista raiz pode considerar Contar sua escolha natural sem comprar todo o pacote do establishment. Da mesma maneira, o fator Lula também entra nessa conta: um eleitor pode perfeitamente escolher alguém de outro campo político no primeiro voto e reservar o segundo para Vander. Não existe transferência automática de patrimônio eleitoral, muito menos numa eleição em que cada cidadão dispõe de duas escolhas para o mesmo cargo. O problema de Azambuja talvez nem seja herdar parte dos votos de Nelsinho. É saber quem herdará o outro.
Nessa hora, até o chamado fator nacional começa a entrar pela porteira. Vander é candidato do PT e carrega consigo a tentativa de nacionalizar parte da eleição em torno de Lula. Contar, por outro lado, tem vínculo evidente com o bolsonarismo mais fiel. Entre um polo e outro, há eleitores que construíram relação própria com Nelsinho ao longo de anos, especialmente em Campo Grande e entre parcelas menos afeitas à radicalização política. É justamente esse eleitorado que fica mais difícil de empacotar, etiquetar e entregar ao novo destinatário. Nelsinho pode acabar protagonizando a disputa justamente depois de deixar de ser candidato, não porque tenha lançado praga sobre ninguém, mas porque seus antigos votos viraram uma espécie de herança sem testamento: todos podem reivindicá-la, ninguém pode obrigar os herdeiros a aceitar o beneficiário indicado.
Juliano Ferro apenas abriu a porteira que tornou o problema visível. Quando anunciou Azambuja no primeiro voto e Vander no segundo, contrariou a tentativa de transformar a dobradinha Azambuja-Contar em regra de comportamento para todo o grupo. E, se outros aliados fizerem o mesmo — ou, mais importante, se os próprios eleitores começarem a construir livremente suas combinações —, a primeira vítima pode ser justamente Contar. O ex-governador pode continuar liderando e chegar ao Senado, enquanto seu companheiro de estratégia descobre que a popularidade do primeiro nome não veio acompanhada da obediência necessária para assegurar o segundo. Será o feitiço do segundo voto começando a virar contra o feiticeiro do primeiro?
Só que porteira, como se sabe, abre para os dois lados. Azambuja não pode pretender que a liberdade de combinação eleitoral funcione apenas quando lhe favorece. Se pode conquistar como primeiro voto alguém que escolherá um adversário no segundo, precisa admitir que seus próprios eleitores também podem fazer exatamente a mesma coisa. Pode-se construir a cerca, escolher o curral, imprimir santinho com dois nomes, orientar prefeito, vereador, deputado e cabo eleitoral e repetir a dobradinha até o sujeito decorar enquanto dorme. O que não se pode fazer é entrar junto com ele na cabine.
Talvez seja essa a verdadeira “praga de Nelsinho”: ter saído da disputa sem levar embora os votos que estavam destinados a ele. Deixá-los soltos justamente numa eleição em que todos parecem muito interessados em decidir antecipadamente o destino do segundo. Se uma parcela correr para Azambuja, outra para Contar, outra para Vander, Soraya ou qualquer outro candidato, teremos não uma transferência, mas um estouro de boiada. E estouro de boiada tem uma característica conhecida por qualquer peão muito antes de os marqueteiros descobrirem os currais eleitorais: depois que começa, ninguém controla perfeitamente a direção.
Foi por isso que aquela ilustração editorial com Juliano Ferro sobre a porteira, megafone na mão, e os currais de Contar, Nelsinho e Soraya talvez tenha antecipado mais coisa do que imaginávamos. Era uma brincadeira gráfica destinada a ilustrar a insubordinação do prefeito mais louco do Brasil. Pode ter acabado desenhando o problema matemático central desta eleição para o Senado. Porque cerca pode ser construída, porteira pode ser fechada, coronel pode bater na mesa, partido pode anunciar dobradinha, candidato pode escolher suplente e marqueteiro pode imprimir santinho com dois nomes. Só tem uma coisa que ninguém consegue fazer dentro da cabine: apertar a segunda tecla pelo eleitor. E, se a boiada estourar, talvez ainda seja cedo para saber quem receberá a praga — Contar, que pode perder o segundo voto; Vander, se não conseguir capturá-lo; ou o próprio Azambuja, que tentou cercar uma eleição justamente no ponto em que ela parece mais difícil de cercar. A porteira está aberta. Agora é contar os bois.
