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quarta-feira, setembro 23, 2026

Mulher Virtuosa

Com estreia em 24 de outubro, o terror brasileiro “Virtuosas” expõe a contradição das influenciadoras que pregam submissão feminina, mas vivem o oposto: constroem carreiras, fortunas e poder nas redes, ensinando outras mulheres a abrir mão disso. A ficção não inventa, apenas espelha uma realidade incômoda.

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Anita Tetslaff*

“Bem-vinda à jornada virtuosa. Desligue o celular, mantenha o sorriso e, em caso de desconforto, permaneça calada”. É com esse convite perturbador que “Virtuosas”, terror social dirigido por Cíntia Domit Bittar e estrelado por Bruna Linzmeyer, mergulha no universo das mulheres ultraconservadoras. O filme chega aos cinemas em 24 de setembro, a menos de duas semanas das eleições. O timing perfeito que transforma a obra em uma provocação política tão afiada quanto necessária.

Na trama, Bruna Linzmeyer interpreta Virgínia Heinzel, uma coach cristã que promete ajudar suas seguidoras a encontrar uma versão mais virtuosa de si mesmas, enquanto articula um projeto muito próprio de poder político. Três mulheres são selecionadas para um retiro que promete transformá-las em “mulheres e mães melhores”. A imersão vende feminilidade, docilidade e submissão como caminhos para uma vida perfeita.

A diretora fez questão de dizer que realizou um mergulho no universo das mulheres ultraconservadoras para criar o filme. O longa foi premiado no programa Goes to Cannes, uma das principais vitrines do cinema mundial, e teve as filmagens concluídas em Florianópolis em 2024. A escalação de Bruna Linzmeyer acrescenta uma ironia deliberada à obra, porque a atriz é assumidamente lésbica e uma voz frequente em defesa da liberdade sexual das mulheres.

“Virtuosas” encosta em um fenômeno que existe muito além do cinema: as tradwives, abreviação de traditional wives, ou mulheres tradicionais. São influenciadoras que fingem submissão ao marido, mas gerenciam um império multimilionário. Fingem casamentos tradicionais, maternidade, casa, religião e papéis rígidos de gênero em conteúdo de lifestyle, ou seja, estilo de vida. O movimento, originado nos Estados Unidos, ganha cada vez mais adeptas no Brasil. É preciso, também, falar das influenciadoras políticas, cuja atuação se revela ainda mais perigosa, na medida em que defendem a supressão de direitos historicamente conquistados, a exemplo da revogação do voto feminino.

A verdade é que ninguém abre o Instagram pensando “hoje eu quero consumir uma teoria política sobre o papel da mulher”. Mas abre para ver uma receita, um vestido, uma rotina de casa, um conselho de relacionamento, uma família bonita. Ideologia também tem direção de arte. Primeiro você deseja aquela vida, depois pode começar a naturalizar as ideias que vêm junto dela.

A contradição que “Virtuosas” expõe não é nova. Há mais de dois séculos, pensadoras vêm desconstruindo exatamente a lógica da submissão feminina como destino natural. Simone de Beauvoir, em O Segundo Sexo (1949), desconstrói a ideia de que a mulher nasce para ser passiva ou submissa, cunhando a famosa frase: “Não se nasce mulher, torna-se mulher”.

Mary Wollstonecraft, em Uma Reivindicação dos Direitos da Mulher (1792), defendeu que as mulheres não são inferiores aos homens por natureza, mas sim por falta de Educação. Ela criticou o sistema que submete as mulheres à ignorância e à dependência, “argumentando que essa condição não é natural, mas resultado de uma educação deficiente e restritiva”.

Da mesma forma, Betty Friedan, em A Mística Feminina (1963), criticou a idealização da mulher exclusivamente como dona de casa e esposa submissa. O livro investiga “como foi construída e mantida a norma social que define a mulher a partir de uma existência frívola, consumista, devotada ao lar, ao marido e aos filhos”. Friedan capturou as frustrações de uma geração e mostrou como as mulheres poderiam reivindicar suas vidas.

Por sua vez, Bell Hooks abordou a libertação das mulheres sob a ótica do feminismo interseccional, combatendo o que chamava de “patriarcado capitalista-supremacista branco”. Sua obra insiste que as lutas contra a dominação estão entrelaçadas e que o feminismo não pode se limitar à luta contra o sexismo. Hooks também alertou para como as próprias mulheres podem se tornar “instrumentos da dominação patriarcal”, uma observação que encontra eco perturbador nas tradwives contemporâneas.

É justamente por isso que “Virtuosas” usa o terror. A ameaça não chega com cara de ameaça. Chega bonita, feminina, religiosa, organizada. A própria diretora disse que uma das coisas que pesquisou foi como os discursos de dominação podem se apresentar como discurso de emancipação.

O timing do lançamento do filme não poderia ser mais significativo. Em 2026, 83,8 milhões de mulheres vão às urnas e podem decidir as eleições. Elas representam 52,8% do eleitorado brasileiro. Segundo pesquisa Datafolha de julho, 37% das mulheres se identificam com a direita ou centro-direita, embora sejam menos conservadoras que os homens. O filme, que lotou duas salas do Estação Claro Rio em sua pré-estreia, chega exatamente nesse momento de disputa pelo voto feminino.

O maior terror de “Virtuosas” não está no que essas mulheres dizem. Está no quanto a linguagem delas já aparece familiar. Está no fato de que o discurso da submissão feminina travestido de empoderamento, de tradição e de fé já não soa estranho aos ouvidos de milhões de brasileiras, e brasileiros. Está na naturalização de uma estética que transforma a perda de autonomia em aspiração de vida.

A menos de vinte dias das eleições, “Virtuosas” não é apenas entretenimento. É um alerta. O terror que o filme retrata não está no passado distante nem em uma ficção distópica. Está no algoritmo do celular, na receita de bolo com filtro pastel, no sorriso perfeito de quem ensina submissão enquanto constrói império. Está, sobretudo, na familiaridade com que tudo isso chega até nós.

(*) Jornalista. Professora. Doutoranda e Mestra em Educação, na Área de Concentração em História e Políticas e Gestão da Educação, pela UFGD. Especialista em Administração de Marketing, pela Uniderp. Especialista em Metodologia do Ensino, pela Universidade Braz Cubas.

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