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segunda-feira, outubro 19, 2026

Lula e Nantes precisam sair do ringue e deixar o Brasil entrar no debate

Enquanto as campanhas ensaiam provocações e fabricam cortes para as redes, o país espera respostas que caibam numa estrada, num hospital e no orçamento.

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Valfrido Silva*

O Brasil amanheceu com as contas de sempre para pagar e uma decepção a mais para digerir. Os dois homens que pretendem governar o maior país da América Latina tiveram à disposição câmeras, microfones e cerca de duas horas para explicar como enfrentar os problemas nacionais. Entregaram um confronto em que acusações e provocações consumiram o espaço das respostas. Houve propostas, números e diferenças políticas, evidentemente. Mas o conjunto deixou aquela sensação de quem atravessou a cidade para uma consulta e encontrou o médico discutindo com o vizinho na recepção. O paciente que espere. A briga estava boa demais para ser interrompida pelo serviço.

A manhã trouxe um agravante: parte da inconveniência havia sido preparada. Reportagens sobre os bastidores relatam que Nantes treinou as aparições atrás de Lula para produzir vídeos destinados às redes sociais. A preparação teve participação de Pablo Marçal, segundo a CNN. O candidato precisava permanecer no enquadramento, reagir, disputar com gestos a atenção de quem ouvia o adversário. Houve dedicação ao ensaio. Faltou oferecer ao telespectador demonstração igualmente convincente de preparo para responder às perguntas. O país inteiro diante da televisão e a campanha pensando no pedaço que caberia no celular.

As entourages também deram sua contribuição ao rebaixamento do espetáculo. Marqueteiros discutiram, aliados trocaram provocações e a gritaria interrompeu o debate por mais de dois minutos. A plateia credenciada parecia disputar uma eleição particular, na qual ganharia quem dificultasse mais o trabalho dos mediadores. Quem pretende comandar ministérios deveria começar conseguindo manter seus convidados sentados e em silêncio. É uma exigência administrativa modesta, quase um estágio antes da governabilidade.

Enquanto isso, havia um Brasil esperando passagem. O Brasil dos modais rodoviário e ferroviário, dos portos, das ligações entre regiões produtoras e mercados consumidores. Quais corredores terão prioridade? Como integrar caminhão, trem e navegação? Que obras cabem no orçamento e quais dependem de concessões? Como fiscalizar o concessionário quando o prazo vence e a entrega fica pelo caminho? Uma discussão dessas pode render menos gargalhadas à claque, mas interessa a quem paga o frete, compra comida e precisa chegar vivo ao destino.

A BR-163 em Mato Grosso do Sul daria assunto suficiente para tirar os dois candidatos do conforto das acusações recíprocas. A concessão começou em 2014. Doze anos depois, o usuário ainda cobra uma transformação prometida quando muita criança hoje adolescente nem havia aprendido a atravessar a rua. Ao examinar o histórico contratual, o Tribunal de Contas da União registrou apenas 150 quilômetros duplicados, cerca de 18,5% dos mais de 806 quilômetros previstos. A cobrança de pedágio começou em setembro de 2015. A cancela aprendeu depressa a funcionar; a duplicação teve uma formação bem mais demorada.

A antiga CCR adotou a marca Motiva, numa mudança anunciada para o grupo em 2025. A empresa pode renovar nome, identidade visual e discurso. O motorista continua precisando de pista. Logotipo novo não abre acostamento, não constrói viaduto e não oferece espaço para uma ultrapassagem segura. Para quem dirige, a melhor campanha de reposicionamento seria encontrar a obra pronta na próxima viagem. O resto pode ficar para o departamento de publicidade.

É preciso registrar as obras retomadas: a repactuação prevê 203 quilômetros de duplicação nos primeiros nove anos do aditivo, e a ANTT informou a entrega de uma faixa adicional em Mundo Novo, em abril deste ano. São avanços que precisam ser acompanhados e cobrados. A nova etapa, porém, não apaga o passivo da concessão. Lula, como presidente, deve explicações sobre a solução adotada e sua fiscalização; Nantes precisa dizer o que faria concretamente, com quais instrumentos e sob quais prazos. Ambos poderiam começar respeitando a diferença entre anunciar investimento e entregar infraestrutura.

Na saúde, vale a mesma cobrança. Lula tem de responder pelas filas que persistem sob seu governo. Nantes precisa demonstrar como pretende alcançar o anunciado padrão Albert Einstein no SUS. O nome de um hospital pode impressionar no palanque; o atendimento exige profissionais, equipamentos, gestão e financiamento. E há educação, saneamento, segurança, produtividade, dívida pública. O Brasil tem problemas suficientes para ocupar muitos debates sem precisar repetir uma única provocação. E o tão badalado agro? O Nantes se esqueceu do filé mignon de seu eleitorado!

Corrupção merece confronto duro, documentos e investigação. Justamente por isso, precisa ser retirada da condição de porrete eleitoral usado conforme a conveniência do braço que o empunha. A cena do sujo falando do mal-lavado produz barulho, mas não esclarece responsabilidades. Cada suspeita exige apuração própria; cada acusado deve responder pelo que lhe cabe. Limpar o ringue significa exigir provas e respostas de todos, inclusive de quem tenta imputar uma acusação ao adversário como certificado da própria inocência.

O debate previsto para sexta-feira, 23, na Globo, oferece uma oportunidade de correção, caso os dois confirmem presença. Pela projeção da emissora e pela proximidade das urnas, poderá pesar na decisão de quem ainda procura razões para escolher. Seria deplorável ampliar o alcance do espetáculo sem melhorar seu conteúdo. As campanhas já demonstraram saber preparar seus candidatos para aparecer. Agora precisam prepará-los para explicar. E, evidentemente, para governar. Afinal é pra isso que estão ali.

Na imagem que fica do debate da Band, Lula e Nantes estão sentados na lona, cada um procurando socorro no próprio córner. O juiz abre a contagem para ambos, enquanto as comitivas procuram uma toalha que prefeririam atirar sobre a câmera. O golpe veio de fora das cordas: é a cobrança de quem saiu do sofá para trabalhar, pegou a estrada, enfrentou a fila e continuou pagando a conta. Ainda há tempo de levantar. Mas, no próximo encontro, convém abrir as cordas e deixar o Brasil entrar.

(*) jornalista e editor do contrapontoMS, em colaboração humano–IA, sob revisão e edição final do autor.

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