Nunca antes na história dos debates um cenário falou tanto como o desta sexta-feira, na TV Globo, o segundo e último confronto entre Lula e Flávio Nantes Bolsonaro nesta eleição. O mapa do Brasil estendido no chão do estúdio parecia sugerir aos candidatos que prestassem atenção ao tamanho da responsabilidade daquele que vier a ser consagrado nas urnas deste domingo. Engessados pelas normas rígidas da Vênus Platinada, estabelecidas para evitar a repetição das cenas constrangedoras do encontro anterior, os dois começaram obedecendo ao roteiro. Mas bastava uma pergunta sobre os problemas nacionais para que a conversa ameaçasse desviar de rota, em direção às questões que mais atormentaram as campanhas nos últimos dias. O Banco Master, as suspeitas envolvendo familiares, os gastos públicos, as rachadinhas, os programas sociais e as acusações de corrupção estavam todos à espera de uma oportunidade para entrar em cena. E entraram, como se o mapa do Brasil não estivesse ali para lembrar que havia um país inteiro precisando de respostas.
A primeira derrapada veio antes mesmo do esperado festival de acusações do bloco livre. Ao discutir salário mínimo, impostos e transporte público, Nantes resolveu recorrer a uma expressão que seu pai e seus seguidores transformaram em instrumento de deboche contra Lula. Disse que o governo dava com uma mão e tirava com os nove dedos. Bastou. O presidente, que perdeu o dedo mínimo da mão esquerda num acidente de trabalho aos 17 anos, reagiu com indignação, lembrou sua origem operária e exigiu desculpas. Chamou o adversário de miliciano, acusação que também elevou a temperatura do confronto. Nantes pediu desculpas pela referência à deficiência física do presidente, mas a provocação já havia produzido seu estrago. Não era apenas uma grosseria dirigida a Lula. Era o uso de uma mutilação sofrida no trabalho como arma de disputa política, justamente diante de milhões de brasileiros que conhecem os riscos de ganhar a vida com as próprias mãos.
A frase trouxe de volta lembranças pouco edificantes do comportamento público de Jair Bolsonaro, pai do candidato. A declaração ofensiva dirigida à deputada Maria do Rosário, a insinuação sexual contra uma jornalista da Folha de S.Paulo e os deboches durante a pandemia fazem parte de um repertório que o país conhece. Não significa que o filho seja responsável por todas as palavras do pai, mas a escolha de uma provocação tão pessoal inevitavelmente reacendeu a comparação entre os dois estilos. Nantes procurava apresentar uma imagem mais moderada, enquanto Lula insistia em associá-lo ao legado político e ao comportamento do ex-presidente. A expressão dos nove dedos ofereceu ao petista a oportunidade de explorar essa contradição, embora sua própria reação, ao chamar o adversário de miliciano, também tenha contribuído para transformar a discussão em troca de ofensas.
Ainda houve tempo para tratar de infraestrutura, ferrovias, salário mínimo, endividamento das famílias, segurança pública, saúde, agronegócio e programas sociais. Lula defendeu o histórico de investimentos de seus governos e a preservação das políticas de proteção social. Nantes questionou a capacidade administrativa do presidente, criticou o custo de vida e prometeu medidas para enfrentar a criminalidade e estimular a economia. Os dois divergiram sobre o financiamento do SUS, a regulamentação das apostas eletrônicas e as prioridades para os próximos quatro anos. No entanto, propostas que exigiriam explicações demoradas acabaram frequentemente comprimidas entre números contestados, acusações e pedidos para que o telespectador procurasse no Google a versão correta dos acontecimentos.
O caso da menina Ana Clara, morta por um disparo de fuzil em Niterói, também entrou no confronto, com a presença de sua mãe na plateia. Nantes, que havia integrado a defesa do policial acusado, sustentou sua confiança na inocência do agente, ainda não julgado. Lula utilizou o episódio para questionar posições do adversário sobre segurança pública e milícias. No bloco livre, as acusações alcançaram Daniel Vorcaro, o Banco Master, suspeitas envolvendo familiares dos candidatos, um filme sobre Jair Bolsonaro, um suposto presente milionário e até uma disputa sobre uma ilha em Angra dos Reis. Acusações foram lançadas e contestadas, sem que a sucessão de versões permitisse ao eleitor formar um juízo definitivo sobre cada caso. A verdade, mais uma vez, ficou dependendo de verificações que não cabiam no cronômetro da televisão.
Mas havia um assunto maior, praticamente engolido pela disputa sobre o passado: a soberania brasileira. A mesma soberania que Lula transformou em bandeira depois que Donald Trump anunciou o tarifaço de 50% contra produtos brasileiros, associando expressamente a medida ao tratamento dispensado a Jair Bolsonaro pela Justiça. A crise deixou de ser apenas comercial quando o presidente americano resolveu misturar exportações, decisões judiciais e seus interesses políticos no Brasil. Eduardo Bolsonaro, instalado nos Estados Unidos, atuava para conquistar apoio internacional à causa do pai, enquanto o governo brasileiro precisava administrar os prejuízos econômicos e defender a autonomia de suas instituições. Lula reagiu contestando a pressão americana, sem abandonar a necessidade de negociar com Washington. O episódio mostrou que soberania não é apenas uma palavra bonita para discursos patrióticos. Pode significar empregos, exportações, investimentos e o direito de um país resolver seus próprios conflitos sem interferência estrangeira.
Nantes, por sua vez, procurou dar outro sentido à ideia de soberania ao longo da campanha, relacionando a liberdade dos brasileiros à segurança, à renda, à carga tributária e à dependência de programas governamentais. É uma discussão legítima, porque a independência de um país não garante automaticamente a autonomia de seus cidadãos. Mas a promessa de libertar o brasileiro das amarras do Estado também exige explicações sobre como proteger os mais vulneráveis, financiar os serviços públicos e impedir que a política social continue servindo aos interesses eleitorais de quem ocupa o poder. A soberania nacional defendida por Lula e a autonomia individual reivindicada por Nantes não deveriam ser conceitos incompatíveis. O problema começa quando cada candidato utiliza uma dessas dimensões para desqualificar a outra, sem esclarecer suficientemente como pretende conciliá-las.
A ascensão da direita no Brasil e em outros países acrescenta importância a essa discussão, especialmente pelas relações políticas que diferentes lideranças mantêm com Trump. A proximidade ideológica não significa, necessariamente, submissão aos Estados Unidos, assim como a oposição ao presidente americano não transforma automaticamente qualquer governante em defensor irrepreensível dos interesses nacionais. O que importa são os compromissos assumidos, as decisões tomadas e suas consequências para o Brasil. O tarifaço mostrou que interesses estrangeiros podem entrar diretamente numa disputa política doméstica. E a atuação da família Bolsonaro durante a crise tornou inevitável uma pergunta que merecia ter ocupado mais espaço no debate: até onde uma aliança política internacional pode avançar sem comprometer interesses brasileiros?
Talvez essa tenha sido a maior frustração da noite. Não faltaram assuntos, tampouco divergências capazes de ajudar o eleitor a distinguir os projetos em disputa. Faltou disposição para aprofundá-los. O debate começou diante de um mapa do Brasil e terminou marcado pela lembrança dos nove dedos de um trabalhador que chegou à Presidência, por acusações de envolvimento com milícias, suspeitas financeiras e desmentidos recíprocos. Nantes reconheceu a impropriedade da provocação e pediu desculpas. Lula também não escapou da escalada verbal. O episódio, porém, permanecerá como uma das imagens mais fortes daquele encontro, não por antecipar qualquer consequência eleitoral, mas por revelar a facilidade com que uma discussão sobre o futuro do país pode ser arrastada para o terreno da humilhação pessoal.
O mapa continuou estendido no estúdio até o fim, indiferente às acusações e às promessas. Nele estavam representados os brasileiros que trabalham, pagam impostos, dependem do SUS, enfrentam a violência, produzem alimentos e esperam que o próximo governo encontre respostas para problemas que não desaparecerão com o encerramento da campanha. Era o Brasil inteiro simbolicamente sob os pés de dois homens que pretendem governá-lo. E talvez estivesse justamente aí a imagem mais eloquente da noite: enquanto os candidatos disputavam quem teria a última palavra, o país permanecia no chão, esperando que alguém finalmente se lembrasse de sua grandeza.
No domingo, a urna decidirá quem receberá a faixa presidencial. Não decidirá, entretanto, quem é proprietário da soberania brasileira. Lula e Nantes podem divergir sobre o Estado, a economia, a segurança, a política externa e até sobre o significado da liberdade. O que nenhum deles pode é esquecer que o território desenhado no chão daquele estúdio não pertence ao vencedor da eleição, muito menos a qualquer governante estrangeiro. Porque a faixa presidencial muda de dono. O Brasil, não.
(*) jornalista e editor do contrapontoMS, em colaboração humano–IA, sob revisão e edição final do autor
