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sábado, outubro 3, 2026

Porque hoje é sábado, também no Cachoeirinha

Na última madrugada da campanha, tereré, cerveja e títulos eleitorais acompanham a espera pela sobra do fundão — talvez a derradeira esperança de a picanha prometida chegar antes da urna

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Valfrido Silva

Porque hoje é sábado, como ensinou Vinicius de Moraes, há uma lua vagando pelo céu, há uma criança que não dorme e, no Cachoeirinha, há cadeiras nas calçadas, garrafas de cerveja mergulhadas no gelo, cuias de tereré passando de mão em mão e títulos eleitorais guardados no bolso. É assim há muitas eleições. Na última madrugada da campanha, o bairro pobre de Dourados não dorme apenas porque domingo é dia de votar. Fica acordado porque ainda espera a visita de alguém que, depois de quatro anos sem aparecer, poderá finalmente descobrir o endereço do eleitor.

Não se trata de uma reunião política, pelo menos não dessas anunciadas nos programas eleitorais, com bandeiras, discursos, jingles e candidatos abraçando crianças previamente selecionadas. É uma vigília. Uma espécie de plantão popular diante do cofre da democracia. Os moradores conversam, relembram eleições passadas, fazem contas e observam os carros que diminuem a velocidade ao dobrar a esquina. Ninguém precisa explicar quem pode estar chegando. O barulho de um motor, naquela hora, às vezes desperta mais interesse que um comício inteiro.

Reza a tradição eleitoral douradense que, nas últimas horas antes da abertura das urnas, aparecem as sobras da campanha. Não necessariamente aquilo que restou oficialmente do fundão, com nota fiscal, prestação de contas e chancela de contador. São outros restos: combustível, carne, cerveja, alguma ajuda emergencial e os famosos “santinhos”, e, à última hora, as providenciais “colinhas”, que nesta época podem carregar mais do que fotografia, número e biografia resumida do candidato. O eleitor calejado sabe que a generosidade da política tem horário para começar e prazo rigoroso para terminar. Às oito da manhã de domingo, o benfeitor já terá esquecido seu nome.

Há quem olhe para essa cena com superioridade e conclua que o eleitor pobre vende o voto. É uma conclusão fácil, confortável e quase sempre pronunciada por quem jamais precisou escolher entre a carne do domingo e a dignidade abstrata oferecida num discurso. A pobreza não inventou a compra de votos. Não fabrica dinheiro, não imprime santinhos, não organiza pacoteiras nem abastece carros que circulam na madrugada. Apenas aprendeu, depois de décadas de abandono, a reconhecer o preço que a política resolveu atribuir à sua necessidade.

Quem compra sabe exatamente o que está fazendo. Passa quatro anos negando posto de saúde, creche, asfalto, emprego, saneamento e, na última noite, oferece cem reais como se estivesse antecipando todas as políticas públicas que jamais entregou. O eleitor recebe aquilo que deveria ter recebido como direito, mas embrulhado como favor. Depois ainda carrega a culpa sozinho, enquanto o candidato posa de vítima da falta de consciência política dos pobres.

Neste sábado, a roda do Cachoeirinha terá também o sabor amargo de uma promessa nacional. A picanha de Lula, transformada em símbolo de mesa farta e vida melhor, talvez não tenha chegado a todas as casas durante o mandato. Poderá, entretanto, aparecer às vésperas da votação, adquirida com algum dinheiro de origem misteriosa, assada numa churrasqueira improvisada e dividida entre vizinhos. Será uma picanha eleitoral: pequena demais para alimentar uma família por quatro anos, mas suficiente para perfumar a rua até domingo.

Não se deve romantizar a cena, muito menos acusar antecipadamente cada morador sentado diante de casa. As rodas de tereré e cerveja pertencem ao bairro; o crime, se houver, pertence a quem chegar carregando dinheiro em troca de voto. Há gente ali apenas conversando, celebrando o fim da barulheira eleitoral ou esperando o domingo como se espera qualquer acontecimento importante. Mas existe também a memória coletiva de outras campanhas, quando a madrugada trouxe visitas, encomendas e súbitas demonstrações de carinho por eleitores esquecidos.

Daqui a pouco os carros de som se calarão, os últimos santinhos serão escondidos nos porta-malas e candidatos que passaram meses proclamando amor pelo povo recolherão seus afetos. Nas calçadas do Cachoeirinha, porém, a vigília continuará. Entre um gole de cerveja, uma rodada de tereré e outra olhada para a esquina, cada um saberá que a urna é secreta, ainda que a necessidade seja pública.

Porque hoje é sábado. Amanhã será domingo de eleição. E, no Cachoeirinha, muita gente ainda espera descobrir se a política finalmente levará a picanha prometida — ou se deixará, mais uma vez, apenas o papel engordurado do santinho.

(*) jornalista e editor do contrapontoMS, em colaboração humano-IA, sob revisão e edição final do autor.

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